A hora dos ursos
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de setembro de 1998
Marcelo de Paiva Abreu 
Na simbologia convencional, os ursos ocupam posição cuja importância, em mais de um sentido, tem sido sublinhada pelos acontecimentos das últimas semanas. De um lado, representam, no jargão financeiro anglo-saxão, os investidores baixistas, em oposição aos touros, altistas. Mas na simbologia da guerra fria tradicionalmente representaram a União Soviética, desafiadora da águia norte-americana. Ursos bursáteis e ursos russos têm desempenhado papéis centrais no agravamento da crise nas economias emergentes, que agora têm probabilidade não desprezível de afetar as grandes economias desenvolvidas, até mesmo a norte-americana.
Depois de longo período de alta, as bolsas de valores nos países desenvolvidos começam a refletir a sucessão de percalços enfrentados pela economia mundial: intensa crise no Sudeste Asiático, fragilidade financeira japonesa combinada à singular paralisia do processo decisório e colapso financeiro da Rússia. Os investidores subitamente redescobriram que a bolsa, nas palavras de José de la Vega, em seu Confusión de Confusiones, de 1688, é um negócio enigmático, o mais real e mais falso, (...) mais nobre e mais infame, (...) mais fino e mais grosseiro, (...) pedra de toque dos atentos e pedra tumular dos atrevidos.
Parece chegado o momento em que, finalmente, são explicitadas as gritantes deficiências da política dos EUA e também dos países europeus, com destaque para a Alemanha, em relação à solução dos problemas criados pelo colapso do comunismo na União Soviética. A política ocidental que prevaleceu desde então pode ser descrita como de baixo custo e alto risco. Os desenvolvimentos recentes parecem confirmar a sabedoria popular que sublinha o risco de alto custo final de alternativas que pareceriam de baixíssimo custo à primeira vista: é o famoso barato que fica caro. A estratégia de Washington minimizou o envolvimento financeiro dos países desenvolvidos no financiamento de uma trajetória segura de transição da Rússia ao capitalismo, que atenuasse a ameaça de desestabilização e a perda de controle sobre o arsenal nuclear.
A estratégia supôs que a própria Rússia poderia arcar com o custo de ajuste e subestimou o dano provocado pela substituição da propriedade pública pela propriedade privada em um quadro institucional absolutamente selvagem. O risco de transferência do controle virtual do sistema econômico para uma combinação de organizações mafiosas não foi suficiente para inspirar a reorientação da política inicial. Ao mesmo tempo, a ação política do Ocidente fornecia munição à resistência à mudança na própria Rússia, ao apoiar implícita e às vezes explicitamente a fragmentação do império soviético. Isso levou a Rússia de volta às suas fronteiras de 1783 ou 1805 na Ucrânia e na Ásia Central. A aplicação de critérios semelhantes aos EUA levaria à devolução dos territórios referentes à anexação texana e à cessão mexicana em 1845-1848. Neste quadro, os nacionalistas russos não tiveram muito trabalho em encontrar bandeiras políticas com efetiva penetração popular, reforçando a resistência à mudança.
O custo da correção destes erros é imenso, pois permitiu-se a criação de uma classe cuja malignidade parece ultrapassar amplamente os níveis alcançados na URSS pós-1953. Além disso, tanto na Rússia quanto no Ocidente há evidente fadiga da liderança política. Os problemas de Yeltsin são estruturais; no caso de Clinton, os escândalos de sua vida privada parecem ter antecipado a síndrome de lame duck, que caracteriza a segunda metade dos segundos mandatos de presidentes norte-americanos.
A inadequação dos esforços sérios de resgate da Rússia, combinada à reversão das tendências altistas em Wall Street e seu consequente impacto sobre a riqueza e a propensão a poupar dos investidores nos EUA, arrisca tornar global a crise que inicialmente afetava um grupo de países emergentes. A posição brasileira é de fragilidade, mas não há muito de caráter de emergência que possa ser feito pelo governo, além do já feito. Infelizmente o mercado registra como dominante na sua memória o desempenho recente do governo, marcado pela tergiversação e falta de decisão quanto à adoção de políticas fiscais efetivamente austeras, tal como prometido em meio ao aperto do final de 1997.
O melhor que pode ser dito a respeito do governo é que seu otimismo panglossiano encontrou eco não desprezível em segmentos substanciais da comunidade financeira nova-iorquina. A diferença entre panglossianos no governo e no mercado é que mesmo os banqueiros panglossianos no momento relutam em emprestar ao Brasil.
Chegou a hora, já antecipada, de os gestores da política econômica no Brasil e, à Kipling, manterem a calma, mesmo quando todos à sua volta perderam a cabeça e os estão recriminando. As cassandras locais de plantão excitam-se com a possibilidade de, finalmente, as suas previsões catastrofistas de 1994 realizarem-se. Mas, na substância, nenhuma proposta com o mínimo de credibilidade tem condições de ser comparada à estratégia do esperar para ver que domina a agenda governamental. O principal candidato de oposição e seus assessores insistem na economia mágica: a panacéia é uma combinação de restrição das importações supérfluas, desvalorização cambial e metas de criação de emprego sem nenhuma relação com o mundo real.
Em termos sintéticos o que se promete no médio prazo é a volta à estagnação com inflação. Dado que este é o pior cenário que poderia resultar de fracassadas políticas governamentais é mais do que natural que a opinião pública esteja tendendo a reeleger FHC no primeiro turno. A oposição continua sem cumprir seu compromisso cívico de pressionar a situação para que adote um programa de governo que melhor sirva aos interesses coletivos. Em meio à desgraça, uma vantagem da crise: aumentam as esperanças de que, encurtado o leque de opções, não sobre ao Planalto senão a virtude, com prioridade no topo da agenda futura às reformas estruturais e à perseguição sustentada do equilíbrio das contas públicas.
- Marcelo de Paiva Abreu é professor do Departamento de Economia da PUC-Rio.


