A globalização exige competência - Antônio Bento Pontes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de novembro de 1998
Antônio Bento Pontes 
Uma palavra tem sido repetidamente mencionada pelos meios de comunicação quando cobrindo assuntos macroeconômicos: globalização. Resumidamente isso significa uma maior interdependência entre as nações ou entre os blocos econômicos, como Nafta, Comunidade Econômica Européia ou Mercosul. Se você descer um nível, vai encontrar as empresas operando indistintamente no país de origem ou em qualquer um outro que lhe ofereça melhores condições de produzir a menor custo. Essa postura é que vai lhes dar mais competitividade. Pronto, buscando competitividade as empresas se globalizam e, através delas, as nações. Vamos no ater aqui ao que interessa: o movimento de globalização das empresas.
O que acontece quando um grande setor como o de autopeças (montadoras e fornecedoras de componentes automotivos) se estabelece massivamente numa nova região, exatamente o que está ocorrendo aqui no Paraná, e, em menor escala, em alguns outros Estados? As modernas técnicas produtivas fazem com que as montadoras tragam junto seus grandes fornecedores, de primeira camada, numa operação casada. O trazer junto tem um sentido literal, pois os fornecedores se instalam em terrenos vizinhos - senão dentro do próprio terreno da montadora. Isso traz à montadora vantagens importantes, como a segurança no fornecimento pontual e uma queda nos custos finais pela simples redução de transporte, de embalagens e de estoques de componentes. Numa segunda camada estarão outras empresas, também estreitamente ligadas àqueles fornecedores, e assim sucessivamente até uma terceira ou quarta camadas.
Ora, considerando que montadoras são empresas de altos padrões de operação e gestão, é certo que vão tomar como parceiras dessa cadeia produtiva aquelas que apresentem as mesmas qualidades e competência. Competência tomada aqui com síntese de recursos humanos e tecnológicos adequados, resultantes da capacidade de investimento à altura das necessidades. Tecnologia aplicada ao produto e aos processos produtivos, mas também tecnologia de gestão, tecnologia da informação.
E nesse quadro, onde estão as nossas empresas? Um excelente estudo publicado no final de 97, Paraná Automotivo - Desafios e Perspectivas, em boa hora patrocinado Sindimetal-PR e pelo Sebrae-Pr, chegou, entre outras, à seguinte conclusão: As empresas locais, em sua grande maioria, não estão preparadas ainda para aproveitar as oportunidades que estão surgindo. (Para dar continuidade ao raciocínio, tomo emprestada apenas esta citação, mas, por sua qualidade e densidade, o estudo merece ser lido na íntegra).
E o que é aproveitar as oportunidades? Qualquer uma das três alternativas: ser um fornecedor da cadeia, juntar-se a um dos que a compõem, ou mesmo ser comprado por um deles. Mas para isso a empresa local tem que estar preparada.
Preparada para enfrentar o concorrente e disputar com ele as muitas oportunidades que vão se abrir neste novo mercado; preparada para poder discutir à altura o seu valor como empresa, no momento em que seja procurada para uma fusão; e igualmente preparada para ser totalmente absorvida por outra. Nestas duas últimas situações, trata-se de agregar valores reais e objetivos à empresa, levados em conta numa mesa de negociação; no primeiro caso, desenvolver musculatura para a disputa que se avizinha.
O caminho entre não estar e estar preparada pode ser longo e custoso, mas tem que ser percorrido sob pena de a empresa sucumbir no enfrentamento ou ser desvalorizada ou sub-avaliada na fusão ou venda porque, muitas vezes, poder haver dificuldade em se determinar o seu valor justo. De qualquer forma, esse caminho só poderá, em função do objetivo que se queira alcançar. Planejamento estratégico, operacional, financeiro ou qualquer outro que seja, mas planejamento, na melhor acepção da palavra, consciente, integral e integrado, participativo, que contemple todos os esforços e todos os recursos para atingir o seu objetivo. E para que ele não fique apenas no papel, detalhe um bom plano de implantação, identifique os responsáveis para cada fase, estabeleça prazos.
Tudo planejado, discutido, exaustivamente discutido e aprovado, faça disponíveis os recursos previstos no tempo adequado, e mão à obra. Neste mundo globalizado só sobrevivem os competentes. Seja dos primeiros a estar entre eles. A sua empresa tem que ser muito mais do que um valor afetivo, ela tem que representar um valor objetivo. Em qualquer circunstância e em qualquer tempo.
ANTÔNIO BENTO PONTES é diretor da BDO Directa, empresa de consultoria internacional.


