A globalização é tarefa da sociedade local
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de agosto de 1997
Sérgio Henrique Schmitt 
Estamos globalizados. Inseridos na realização da nova e derradeira fase do modo de produção capitalista. Derradeira porque não há a contradição do sistema, dizimada no pós-muro, embora mantenha, ainda e apenas, uma Cuba bloqueada e uma China contaminada. Uma globalização implementada pelo neoliberalismo do Estado mínimo, receita inglesa para aumentar as oportunidades da economia internacional e reduzir atuações nos desequilíbrios sociais nacionais, formas facilitadoras de permitir a circulação sem fronteira da riqueza.
Antes da globalização eramos o que comiamos. Hoje somos o que consumimos. Amanhã seremos o que produzirmos. Três momentos distintos da humanidade moderna vistos pela perspectiva da crise, esta a verdadeira face da mudança que não leva à transformação social.
Agora, pela globalização, a luta de classes sai de moda, porque a maioria dos povos é sem terra, sem teto, sem carro, sem comida, sem dinheiro, sem cidadania e, por incrível, com acesso fácil aos meios de produção na manutenção e reprodução da vida. O centenário conflito do capital versus trabalho é substituído pelo emprego e pela base territorial produtiva. O exemplo atual são os tigres asiáticos, países que dominam a linguagem universal da informática, mantêm sub-ocupada a expressiva parcela do exército de mão-de-obra, utilizam o capital na própria sobrevivência aplicando-o nos centros financeiros para competirem e se manterem do mercado mundial e não na qualidade de vida de seus povos.
Na organização geopolítica mundial, de justificativa econômica, os blocos estão formados, é o NAFTA, o MERCOSUL, dentre outros e cada bloco desigual ajusta países desiguais integrantes na tentativa de garantir a participação competitiva na nova ordem. A faminta África não faz parte de um bloco. Antes ela servia de exemplo no discurso ideológico de que havia fome no mundo. Continuará de estômago vazio, independente do excesso de produção de alimentos que a tecnologia disponível permite e que o mercado cerceia o acesso. Nossos irmãos africanos passarão fome porque a sua base territorial não é alvo de interesse da globalização e muito menos as suas atividades produtivas. Além dos famintos serão penalizados pelo desemprego absoluto.
O Brasil também está globalizado e, como sempre, tardiamente, porque ainda não resolveu a síndrome da capitania hereditária. Entra na nova ordem mantendo o abtuso e secular conflito agrário. Fazendeiros descapitalizados persistem manter domínio de áreas improdutivas, como reserva de capital. Trabalhadores rurais persistem na teimosa e ideológica invasão das terras. Ambos na contramão da história conservadora, porque lhes falta a visão de que a terra é o único espaço territorial produtivo capaz de auto-empregar a maioria dos excluídos.
A disponibilidade legal da terra - Reforma Agrária, Vilas Rurais, Ocupação de Fronteiras, etc. - para produção de alimentos competitivos (inclusive produtos orgânicos) e geração de auto-empregos, oxigena a economia local, inclusive capitaliza o ex-dono da propriedade rural improdutiva que pode assim investir em novas e necessárias atividades locais, sem a limitante dicotomia campo X cidade e criando oportunidades de ocupação sem diferenciação de gênero humano.
Tal como o capitalista nacional que hoje está subordinado ao assalariamento remunerado pelos fundos de pensão das velhinhas norte-americanas, temos na unidade territorial produtiva o maior volume de oportunidades de empregos em disponibilidade para a produção de mercadorias determinadas pela ordem global. Para isso, os alvos são a descentralização do poder de Estado e a retirada dos entulhos executivos, legislativos e jurídicos - que deveriam estar previstos nas reformas - para municipalizar os equipamentos de desenvolvimento. Estão ali, em cada município, as condições materiais e objetivas da mudança histórica. Cabe à sociedade local - em especial as do Paraná, que já esgotou na fronteira agrícola e conta com 4 centenas de municípios - repensar seu papel, organizar suas finanças, qualificar a população economicamente ativa e, urgente urgentíssimo, implantar a modernidade.
- SÉRGIO HENRIQUE SCHMITT é jornalista, especialista em Comunicação e Marketing Rural da EMATER-Paraná


