A globalização, a Tailândia e o Brasil
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de agosto de 1997
Miguel Ignatios 
Analistas da economia internacional tentam desesperadamente saber o nome da bebida nacional da Tailândia para com ele batizar a especulação cambial com o baht, a moeda daquele país do Sudeste asiático. Se soubessem o nome, falariam imediatamente em efeito tal, como, no passado, fizeram com o efeito Orloff em relação aos problemas das economias argentina e brasileira e, mais recentemente, com a crise cambial mexicana, popularmente conhecida como efeito tequila.
Mas enquanto eles procuram saber o nome da bebida mais popular da Tailândia, desde que não seja a água, nem a Coca-Cola ou a Pepsi-Cola, vamos tentar entender o que vem acontecendo com as economias da Tailândia, Filipinas, Cingapura e Indonésia, na região do Sudoeste asiático, e também de seus reflexos - já registrados pela imprensa internacional - em alguns países da Europa Oriental, principalmente a República Tcheca e a Polônia.
A primeira lição que a tão sonhada globalização nos ensina é que os efeitos de crises cambiais são sentidos em maior ou menos escala, dependendo da solidez e da vulnerabilidade das economias nacionais, em qualquer região do planeta. Assim, os efeitos da atual crise cambial da Tailândia são necessariamente mais perversos no sudoeste asiático do mesmo modo que a crise cambial mexicana afetou em maior grau as economias argentina, chilena e brasileira, etc.
A questão que vem sendo muito debatida por analistas para explicar a desconfiança em relação ao baht tailandês e às moedas nacionais filipina, indonésia e cingalesa é a dos desequilíbrios conjunturais (ou já teriam se transformado em estruturais?) das contas públicas da Tailândia, das Filipinas, da Indonésia e de Cingapura. Toda a onda especulativa, para tais analistas, resumir-se-ia aos crônicos déficits comerciais e em transações correntes das economias dessas nações. Por isso, suas moedas estariam sob fogo cerrado do capital especulativo internacional.
E isso, em parte, é verdade. Mas há também outra explicação para a onda especulativa que assusta o Sudoeste asiático. Ela é simples mas, por incrível que possa parecer, passou da economia internacional e até mesmo - pasmem leitores - dos gurus entusiastas da globalização a qualquer preço. Ora, todos nós sabemos que Hong Kong antes de ser devolvida à República Popular da China era um próspero centro financeiro que reciclava principalmente eurodólares captados em Londres e iens provenientes da europa e da própria região dos tigres, ou seja, do sudeste asiático.
Nós também, sabemos que o capital não tem prática e que no zoológico da globalização é o animal mais assustadinho. É claro que investidores e especuladores europeus não esperaram o fatídico 30 de junho passado, último dia da soberania britânica sobre Hong Kong, para retirar suas aplicações (hot money e investimentos de risco) de lá. Isso já vinha acontecendo, no mínimo, há seis meses, na virada de 1996 para 97, ou, no máximo, nos primeiros três meses deste ano.
Muito bem, e daí? Apenas a retirada do que estava investido em Hong Kong não seria capaz de desestabilizar as moedas da Tailândia, das Filipinas, da Indonésia e de Cingapura. Ocorre que os eurodólares investidos em Hong Kong foram de lá reaplicados nas economias de todos os tigres asiáticos à medida que analistas locais iam detectando boas oportunidades para tal. Encerrada a soberania britânica sobre a ilha, aos poucos, investidores europeus começaram a repatriar os capitais aplicados nas economias dos demais tigres do Sudoeste asiático. Mas por que vem ocorrendo tal repatriamento? Simplesmente porque é preciso encontrar outro local para substituir Hong Kong como centro financeiro da região. E até lá o melhor é mesmo não arriscar.
Além disso, periodicamente, investidores dos grandes centros financeiros internacionais - Nova York, Londres, Frankfurt, Paris, Tóquio, dentre outros, - repatriam os investimentos para reavaliar as melhores oportunidades de reinvestí-los.
Ora, a retirada dos eurodólares investidos no Sudeste asiático deixou na região apenas os iens proveninentes dos mercados europeus e dos próprios tigres locais. Isso explica o fato de o Governo japonês já ter colocado à disposição da Tailândia, Filipinas, Indonésia e Cingapura, os mais afetados pela crise cambial, um fundo de US$ 20 bilhões.
E o Brasil com tudo isso? Bem, por enquanto, ele torce para entrar na reta alternativa dos eurodólares repatriados dos tigres asiáticos para Londres onde, aliás, sem alarde, o Governo brasileiro tratou recentemente de lançar bônus do Tesouro Nacional. Para o futuro, todavia, pairam algumas dúvidas sobre o Plano Real: sobrevalorização cambial, déficit comercial e fiscal e dependência crescente do ingresso do capital estrangeiro.
Concluindo: para o Brasil atrair os eurodólares repatriados de Hong Kong o dos tigres asiáticos é preciso apressar as reformas e não - como o Governo tem feito - postergá-las em benefício da reeleição.
Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém!
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).


