Mais um ano de muita expectativa antes do fechamento do balanço da agropecuária, com previsões de safra recorde (85 milhões de toneladas), mas apenas com os 78,7 milhões de toneladas de grãos, para não deixar de fazer concorrência com outros segmentos, graças ao retrocesso econômico verificado no país em 1998.
E não adianta ficarmos insistindo nos comentários comparativos com a agricultura na Argentina (que estrategicamente passou a observar a nossa inércia, definiu o seu rumo, e apresenta acentuado crescimento da agricultura), uma vez que as políticas para o desenvolvimento são uma questão de opção, podendo-se verificar que esta área não é a que foi eleita por nós como a mais importante.
Na verdade, o baixo desempenho da agropecuária não é problema só do produtor, devendo ser encarado com preocupação pela sociedade como um todo. Com base neste desempenho, que otimistas afirmavam ser momentâneo, todos haveremos de pagar a conta, principalmente por haver reflexo contundente na manutenção do emprego. Além do quê, sabe-se que o País encontra-se com estoques reguladores muito baixos, que só serão repostos com esforço do governo federal, com base em política de aquisição de produtos, dependente de recursos, que com certeza não estarão disponíveis no prazo e montante necessários para a reposição.
Mas, na realidade, o que importa o emprego, num país que mantém-se à margem da competitividade internacional no setor primário, tendo em vista que economicamente é mais fácil importar alimentos do que produzi-los nesta terra ‘‘onde em se plantando tudo dᒒ ? Este continua sendo o pensamento daqueles que orientam a nossa economia e isso é cada vez mais visível...
A velha história da safra prometida não se fez realidade, hoje é só estória. Mesmo que assim tivesse acontecido, os preços dos produtos agropecuários, na sua grande maioria, apresentaram queda significativa, promovendo a redução da já remota possibilidade de bons lucros, deixando muitos produtores ainda mais endividados, o que deverá merecer tratamento condizente do governo, assim esperamos todos.
Numa situação como essa, é muito comum, também, uma verdadeira ‘‘chiadeira’’ de outros segmentos produtivos sobre um possível tratamento diferenciado para a agricultura, uma vez que muitos estão endividados e as dívidas significam alto risco, em função da elevada taxa de juros - impagáveis, como dizia um ministro, que ao invés de cuidar do trabalho, insistia em lapidar a nossa língua. Ocorre que, neste particular, a agricultura tem que merecer destaque, não porque nós que estamos vinculados ao setor queremos, mas por existir um poderoso esquema de proteção imposto por aqueles que nos emprestam dinheiro, fazendo com que sejamos muito pouco competitivos. Isso não pode ser deixado de lado pelos nossos governantes, sob pena de mantermo-nos à margem do processo do desenvolvimento social. Este último, de tão explorado nos discursos políticos, já não nos anima em enfatizá-lo.
Contudo, para que sejamos competitivos na atividade agropecuária (deixando de lado a eterna justificativa de tratamento injusto, face às condições econômicas mundiais), devemos ‘‘manter os olhos no boi, mas também no pasto’’. Isso, por interpretação, significa dizer que não teremos a mínima condição de competir, se não estivermos tecnicamente bem assessorados, nos mais diferentes níveis, tendo em vista que foi-se o tempo em que agricultura só dependia da introdução da semente no solo. Esta também é uma razão pela qual a pequena produção deve passar por um verdadeiro reajuste, aliás, como pretende o governo através do Pronaf, que teria tudo para dar certo, não fosse o pequeno poder decisório que apresenta o Ministério da Agricultura, no contexto das definições econômicas no País.
A tão evidenciada agricultura familiar deve passar de um patamar moldado pelo lirismo que envolve as ‘‘coisas da roça’’ - quando tínhamos a visão de uma família de poucas posses, mas com certa dignidade na sua condição de vida - para um nível onde o trabalho tem que ser mais profissional. Assim, as iniciativas de treinamento sempre serão bem vindas.
Entretanto, existe uma verdadeira lacuna entre o saber como fazer e o quê fazer, que não será vencida sem a intervenção governamental, no sentido da definição de políticas claras e com suporte técnico e financeiro para este público específico.
Deve importar ao produtor familiar saber o quê produzir num dado momento, o que muitas vezes é definido por condições regionais e quase nunca por uma precisa visão do mercado internacional. Assim, sob o ponto de vista daqueles agentes de governo que apregoam a produtividade como meta exclusiva da pequena propriedade, cabe maior reflexão sobre as vantagens comparativas da produção de um dado produto, para um mercado demandador, muito além do quanto se está produzindo por área.
Também é importante a distribuição desse produto, que pode ser feita de forma digna pelo tão temido intermediário, contanto que haja um sistema comercial que seja mais justo e honesto para ambas as partes. Para isto, existem mecanismos viáveis, como os pregões de mercadorias, por exemplo (não querendo ser tão simplista assim, mas ...), que para funcionarem necessitam de vontade política para a organização dos produtores e comerciantes em geral, além da efetiva participação do nosso próprio consumidor, que deve buscar produtos de qualidade com preços diferenciados.
Para a agropecuária mais competitiva, na qual o Paraná continua dando exemplos de vitalidade, importa: as condições gerais de infra-estrutura de escoamento, alíquotas de impostos, tarifas rodoviárias, ferroviárias e portuárias, políticas de incentivos diversos, principalmente. Já faz muito tempo que todos aguardavam ansiosamente o anúncio dos recursos de custeio para a safra agrícola, como resultado de inúmeras preces dirigidas a todos os santos. Recursos não são mais tão limitantes (apesar que sempre ajudam, é claro), havendo sim, a necessidade de acompanhamento dos mercados locais e internacionais e da intensidade de uso de tecnologia, ou seja, de uma visão estratégica e empresarial em constante atualização.
Outro aspecto de vital importância é a recente intenção de taxação de produtos de exportação. No momento atual, não é possível que tenhamos que enfrentar mais este problema que só contribuirá para rechear os cofres públicos. Estes, serão esvaziados num piscar de olhos, tamanha é a dimensão das nossas dívidas.
Isto posto, não podemos acreditar que tão pouco seja feito pela agropecuária nacional, principalmente em função do reduzido custo para os Governos, face aos benefícios que seriam advindos de tais iniciativas para toda a sociedade. Quem sabe um dia, veremos nossos impostos serem mais bem utilizados, gerando esperança e possibilidades de uma vida mais digna para tantos brasileiros que só pretendem trabalhar e viver daquilo que produzem e sabem fazer?
Vamos mudar este quadro de derrota que se instaura de um ano para o outro, através dos nossos mecanismos de organização e cobrança de ações mais efetivas e condizentes com a realidade em que vivemos.

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