Existem poucas dúvidas, nos meios econômicos, de que o ajuste do plano de estabilização, contido no pacote monetário-fiscal lançado recentemente pela equipe econômica, deve interferir negativamente nos níveis de atividade, devido sua natureza recessiva, atestada pela duplicação dos juros reais, pela contenção dos dispêndio e inversão (pública e privada), e pela transferência de renda das empresas e das famílias para o governo, viabilizada pelo aumento da carga tributária e dos preços dos combustíveis.
Entretanto, persiste a expectativa oficial de que as características de inibidos das compras a prazo e pró-exportações, embutidas no rol de medidas, podem provocar um desvio do fluxo da demanda de bens de consumo duráveis (principalmente automóveis e eletrodomésticos) na direção dos mercados de não duráveis, especialmente de alimentos. Sendo isso feito, estaria cumprindo o objetivo de redução do coeficiente de importações, pela via da desaceleração localizada da produção doméstica, favorecendo a performance das bases econômicas movidas pelo agrobusiness e/ou por pequenas e médias empresas (PMEs).
É evidente que esse cenário precisa ser relativizado. A apreciação de alguns elementos oportuniza o delineamento de um panorama mais complicado. Em primeiro lugar, parece certo que a menor expansão do Produto Interno Bruto (PIB) deve promover o encolhimento do consumo de alimentos, ampliando as margens de ociosidade de determinados segmentos superdimensionados com o surto de demanda interna pós-Real, ancorado no aumento do poder aquisitivo dos salários, na maior oferta de crédito e na abertura às importações.
Em segundo lugar, o iminente quadro recessivo pode até ser aprofundado pela elevação dos custos de produção e de estocagem da agricultura, diminuindo a rentabilidade setorial e comprometendo inversões em tecnologia (máquinas e insumos). Essa hipótese é sustentada por componentes físicos (aumento dos preços dos combustíveis), fiscais (eliminação da isenção de IPI sobre máquinas e equipamentos) e financeiros. A propósito desse último ponto, cabe esclarecer que a maioria dos produtores rurais ou contratou empréstimos a juros de mercado, ou possui dívidas atreladas à Taxa Referencial (TR) ou tomou financiamentos indexados à Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP).
Não bastassem esses constrangimentos, a elevação da tarifa externa comum (TEC) em 3%, apresenta eficácia limitada porque exclui os países do Mercosul, procedência de 80% das importações brasileiras de produtos agropecuários. Para o algodão, a alta dos juros internos tornou bastante vantajosa a realização de importações por parte das tradings, com prazo superior a 360 dias (ganho estimado em 17% mesmo com a majoração da TEC em 3%), o que pode prejudicar as iniciativas de recuperação da área de plantio da cultura, particularmente no Estado do Paraná, organizadas e orientadas pelo governo.
Em terceiro lugar, as PMEs revelam-se absolutamente incapazes de inverter a marcha retracionista nas variáveis produção, vendas e emprego, dada sua enorme vinculação à demanda doméstica e pouca atuação no mercado internacional. Assim, sua velocidade de resposta aos incentivos, traduzidos na criação do seguro de crédito e do fundo de aval, mediante a reconversão de produção ao exterior, dever ser inferior ao ritmo de compressão das vendas internas. Além disso, a possibilidade de apropriação do principal mecanismo de alavancagem das exportações a curto prazo - o ganho financeiro implícito nas operações de Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC) - depende da desregulamentação e da simplificação das transações externas.
A aposta na válvula de escape configurada nas exportações ainda esbarra na recessão e no aumento de grau de competividade externa dos países asiáticos. A contração doméstica dos tigres diminui as necessidades de importações e a ampliação de seu poder de concorrência, depois das correções cambiais efetuadas, deve alcançar sobretudo os mercados americano e europeu.
Em quarto lugar, não se deve perder de vista os impactos de possíveis adequações táticas das empresas, visando compatibilizar os níveis de produção física com um ambiente de mercado retraído e/ou estagnado. Nesse particular, é lícito pressupor a diminuição ou paralisação das atividade de algumas linhas de produção, assim o como redimensionamento ou postergação de planos de investimentos na construção de novas plantas industriais. Por enquanto a retração nas vendas vem provocando ajustes pontuais como a ampliação do prazo de férias coletivas, cortes de horas extras e eliminação de turnos de trabalho, no caso da Volvo do Brasil, e a antecipação de férias coletivas, adotada pela Electrolux.
Por fim, resta como provável amortecedor da conjuntura de crise a manutenção da dinâmica do segmento infra-estrutural. Esse grupo congrega atividades com grande capacidade de geração de empregos e apreciável encadeamento com o setor industrial. Adicionalmente, representa alternativa de retorno garantido para investimentos estrangeiros diretos, essenciais para o financiamento do balanço de pagamentos do país, justamente numa fase marcada por dificuldades na obtenção de empréstimos devido as turbulências nos mercados financeiros internacionais.
Nesse contexto, assumem importância estratégica projetos como o do Anel de Integração do Estado do Paraná. Tal iniciativa representa o repasse, à iniciativa privada, das obras de reparação, conservação e duplicação de um eixo viário de extensão superior a 2 mil km, conectando os principais pólos econômicos, alargando as vantagens competitivas regionais na atração de novos capitais produtivos.
- GILMAR MENDES LOURENÇO é economista e coordenador do Grupo de Conjuntura IPARDES.

mockup