A economia e alguns economistas
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de setembro de 2001
Rubens Bueno 
Uma análise, ainda que não muito aprofundada, da alta do dólar nos últimos meses pode nos levar a conclusões curiosas. Por que razão, afinal, se procura valorizar a moeda americana, em detrimento do real? A economia brasileira se recupera, a olhos vistos, da crise de janeiro de 1999. O PIB, e visivelmente por causa da crise energética, somente ao final do primeiro semestre entrou em queda, isto podendo indicar uma nova recessão. Mas, agora, e não no princípio, quando o dólar começou a indicar uma ainda não atenuada tendência a alta.
Seria a crise argentina, diriam alguns.
Difícil aceitar esse argumento tranquilamente. Afinal, depois de implantado o real, o Brasil já enfrentou a crise mexicana de 1995, a russa, de 1997, a do sudeste da Ásia em 1998, sem que o real desce indícios de desestabilização. Ao contrário, até mesmo quando a crise se instalou entre nós, no início de 1999, a brutal desvalorização de nossa moeda foi apontada por alguns economistas de plantão como definitiva. E apostavam todos em que o dólar, daí em diante, seria a melhor aplicação, a mais segura, a mais rentável.
Deram com os burros nágua, é certo. Mas parece que suas previsões catastróficas ganham novo peso, com o dólar rendendo percentuais bem acima
da inflação do mês, do semestre. Estávamos ocupados com essas idéias quando nos chamou a atenção artigo publicado pelo excelente jornalista Clóvis Rossi, na ''Folha'' do dia 16 de agosto. O articulista nos adverte que os bancos, temendo dias piores, deram início a uma compra desabalada de dólares razão maior para os preços abusivos de agora e encheram seus cofres de moeda ianque, na expectativa de que a crise se instalaria em definitivo no Brasil e, assim, poderiam vender esses dólares entesourados por uma fortuna.
Puro jogo. Puro risco. Mas o jogo e, portanto seu risco, têm regras que, afinal, são os próprios banqueiros que estabelecem. Tanto que, esvaindo-se, de alguma forma, os efeitos da crise de 1999, há a necessidade de que se instale ou, pelo menos, se aponte nova recessão, nova corrida ao dólar, enfim, novos assaltos a nossa economia, que resultariam, impossível negar, numa alta acelerada dos dólares que os senhores banqueiros acumularam em seus cofres. E, nesse caso, voltam a atuar os economistas de plantão que, em entrevistas, conferências, artigos de jornal, declarações genéricas, apontam para uma crise que está logo ali, na esquina, fazendo com que uma nova ''corrida ao ouro'' revalorize as moedas fortes que acumularam. Não queremos dizer que essa crise anunciada, ainda que exagerada, seja inteiramente falsa. O Brasil depende, a cada dia mais, de capitais externos e, faltando esses capitais, a situação se vai mais e mais agravando. Mas isso difere do artificialismo criado por esses economistas, que, no plantão, servem aos senhores que lhes pagam gordos salários, quase todos, ninguém desconhece, servindo a grandes grupos financeiros, quando não proprietários de corretoras, jogadores, enfim, desse cassinão em que se transformaram as finanças do país. Olho neles!
RUBENS BUENO é deputado federal, presidente do PPS-PR e líder da bancada na Câmara dos Deputados.


