A decisão de Pelé
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de julho de 1997
Faruk El-Khatib 
Escolha: Pelé ou Mobutu? Pelé parou no auge da forma técnica e física. Foi como se, no meio de um drible, parasse, pusesse a bola embaixo do braço depois de algumas embaixadas e bye, bye. Pelé parou quando estava no topo, soube o momento certo e continua ídolo em todo o planeta. Mobutu, não. Chegou lá em cima - OK, não é um bom exemplo, mas servirá para o que pretendo -, teve a oportunidade de sair como herói, o homem que democratizou o Zaire e salvou o país. Não. Esperou ser derrubado. Não soube a hora certa de parar.
É assim a vida também nas empresas. Tem muito presidente, superintendente, diretor-geral (e por aí vai) que não sabe a hora de pôr a bola embaixo do braço, mesmo que a torcida esteja aos berros pedindo por substituição. Não sabe ser como Pelé. Sairá, com certeza, como Mobutu.
A carreira profissional tem muitos estágios e a cada degrau vencido deve-se dar uma parada, ver o que se obteve no passado e projetar o futuro. O primeiro estágio é a ambição. Sem ela ninguém vai a lugar nenhum. Onde você quer chegar? O que você quer ser quando crescer? Faça sua lição de casa. O segundo é a preparação. Só ambição não basta. Quer ser um grande executivo? Estude. Vá para o exterior, mantenha-se atualizado. Pronto, o terceiro estágio virá a seguir: a realização. Seus sonhos, ou pelo menos parte deles, realizados, o reconhecimento dos colegas, dinheiro no banco, poder. Cedo ou tarde, no entanto, você vai se defrontar com o quarto estágio: a decisão de Pelé, ou de Mobutu.
Sim, na vida nada é eterno, mesmo que alguns executivos sintam-se algemados na cadeira de comando, imortais, para sempre. Há sinais, é claro, que indicam a hora da decisão. Alguns deles:
1 - Você começa a rejeitar todas as idéias novas que lhe apresentam;
2 - Começa a usar com frequência expressões do tipo também já fui jovem e sei que não vai dar certo, ou não quero me incomodar;
3 - Não tem mais paciência para discutir;
4 - Começa a pensar que todos, até o porteiro e a senhora do cafezinho, querem derrubar você;
5 - Não vê ninguém na empresa em condições de ser seu sucessor, nem se preocupa em preparar alguém.
Se você se identificou com pelo menos três dos sinais acima, meu amigo, pare para ouvir os gritos da torcida. Pense em Pelé, pense em Mobutu. Ainda há tempo de mudar. É melhor sair como o executivo que montou uma equipe, criou um estilo, deixou seu sucessor e será sempre lembrado na empresa como administrador exemplar do que ser atropelado, derrubado, escorraçado como um ditador africano. Pelé não correu riscos, não se deixou seduzir pelos gritos de quero mais e se mantém no topo até hoje. Mas se você prefere ser Mobutu, espere até os tanques baterem em sua porta.
- FARUK EL-KHATIB é empresário e diretor da Fama Comunicações Marketing e Participações de Curitiba


