A crise chega ao camelódromo
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segunda-feira, 14 de março de 2016
Luís Fernando Wiltemburg<br>Reportagem Local 
A crise chegou ao comércio popular em Londrina. O reflexo disso são as cerca de 40 lojas fechadas e a queda no volume de pessoas dentro do Camelódromo, centro de compras de aparelhos eletrônicos, bolsas, sapatos, acessórios, videogames e jogos e até óculos e artigos para pescas localizado na região central da cidade.
O Camelódromo foi formado durante o primeiro governo Nedson Micheleti (PT, 2001-2008). O petista retirou os camelôs que fechavam a avenida São Paulo, na lateral do Terminal Urbano, e na calçada atrás do Museu Histórico de Londrina, na avenida Leste Oeste. Desde então, foram transferidos para um prédio particular no cruzamento da rua Sergipe com a Mato Grosso. Além da organização, houve também a profissionalização, já que são pequenos empreendedores que atuam no ponto.
Segundo o gerente administrativo do centro de compras populares, Samuel dos Santos, o espaço comporta 350 boxes. O proprietário do local, o empresário Mohamad El Sayed, afirma que são cerca de 330. Entretanto, de todas as portas existentes, 40 estariam fechadas, de acordo com a administração do Camelódromo El Sayed calcula 30 sem funcionamento.
A redução na quantidade de comerciantes atuando no local acompanha a queda na frequência de compradores, de cerca de 30% desde julho do ano passado. "Num sábado, são cerca de 7 mil pessoas, mas, durante a semana, não passam de 3 mil", diz Santos.
Dólar
O motivo do aperto é fácil de concluir: além da crise econômica que encareceu o custo de vida e retraiu o consumo, a alta do dólar também afeta diretamente o preço dos produtos da maioria dos vendedores, já que são importados. "Mesmo que a gente compre no Brasil, o importador paga em dólar, que está mais caro", lembra Rodolfo Lansoni, cuja família tem um um box de venda de calçados no piso térreo a área mais valorizada e com menor número de portas fechadas, devido ao maior fluxo de compradores.
As vendas caíram cerca de 70% de 2014 para o ano passado, ele afirma. Já o box da frente, que vendia eletrônicos, fechou e os vendedores mudaram-se para uma galeria ao lado, na rua Mato Grosso. De acordo com locatária, Nágila Boa Morte, o que levou à troca de endereço foram a queda nas vendas, que inviabilizou o pagamento do aluguel.
Para Lansoni, os pontos inativos são "uma tristeza". "A maioria das pessoas que passam a trabalhar aqui via no Camelódromo um lugar de trabalho digno, uma forma de enfrentar a concentração de renda das redes varejistas", diz.
Dono de uma loja de bolsas no segundo andar, Pedro Santos Pinho afirma que os corredores ficaram vazios antes do mês de março, quando achou que a coisa "ia pegar". Para ele, a alta do dólar e os custos altos com aluguel e condomínio inviabilizam os negócios e, por isso, muitos fecham as portas.
Para Marcelo Vital dos Santos, que atua no ramo de venda e assistência técnica de aparelhos celulares no andar térreo, a crise impactou diretamente nos custos do comércio dentro do Camelódromo. "Uma loja aqui dentro cujo ponto chegava a custar R$ 100 mil hoje não encontra quem queira nem R$ 40 mil", afirma.
Inadimplência interna
O reflexo da crise respinga também na administração: a inadimplência do condomínio bate nos 40%, afirma Samuel dos Santos. Para ele, boa parte dos custos dos comerciantes está no valor do aluguel. "O valor do metro quadrado é o mesmo do principal shopping center da cidade", argumenta.
O aluguel varia entre R$ 500 e R$ 1.500, segundo o gerente administrativo, de acordo com a localização e outros fatores que influenciam no volume de vendas. "O aluguel está matando a gente", argumenta. Os contratos vencem, em sua maioria, a partir de abril.


