O modesto incremento de 3.03% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 1997, mesmo não captando integralmente o contágio global do crash asiático, reacendeu o debate sobre a marcha provável dos níveis de atividade ao longo de 1998.
Nesse sentido, uma sucinta avaliação da gestão econômica permite o delineamento de cenários de continuidade do desaquecimento no corrente ano, em face dos desdobramentos da estratégia de majoração dos juros reais, de compressão fiscal e de manutenção da banda larga cambial praticada pelo governo federal.
Essa posição foi deliberadamente intensificada no final do ano passado, em razão dos impactos da crise financeira dos mercados asiáticos - começando na Tailândia, Filipinas, Indonésia e Malásia e atingindo a Coréia do Sul e o poderoso Japão - particularmente quanto ao financiamento externo. De pronto, constatou-se aumenta de grau de volatilidade das correntes de capital de risco, ocasionando estreitamento da liquidez e, por extensão, menor ritmo de expansão da economia mundial.
Presentemente começam a ser emitidos sinais de uma reversão lenta dessa tendência, reproduzidos nos pacotes de ajuda financeira - com a arrimentação de US$ 10 bilhões pelo FMI para financiamento das exportações da região e o reescalonamento das dívidas de curto-prazo da Coréia do Sul, pertencente à primeira geração dos tigres ricos - e na tentativa de viabilização das transações regionais com moeda local, diminuindo a demanda por dólares.
Mas, é importante reter que desde o momento em que os países do sudeste asiático promoveram fortes desvalorizações cambiais - há diversos anos vinculadas à moeda americana em regime de paridade fixa - houve um barateamento relativo dos bens finais e intermediários nos mercados dos Estados Unidos e Europa, implicando no comprometimento da competitividade de parcela das exportações brasileiras.
Segundo projeções da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o País pode perder US$ 1,5 bilhão em exportações em 1998, por conta dos reflexos da crise na Ásia, em especial com as vendas dos segmentos caracterizados pela sobreposição dos mercados asiático e brasileiro, tais como frango, calçados aço, alumínios, veículos, açúcar e papel e celulose. Esse últimos ramo expõe um complicador adicional derivado da maturação de vários investimentos na Indonésia e Coréia gerando excedentes de produção e, consequentemente, queda nos preço.
Constatam-se ainda dois agravantes desse quadro: I) o declínio das importações dos tigres asiáticos que absorvem quase 6% do total das exportações brasileiras, sendo 30% no caso da celulose; e II) o barateamento relativo das compras externas brasileiras de eletrodomésticos e de componentes eletrônicos motivados pela redução dos preços desses itens fabricados naqueles países.
Diante desses condicionantes, o panorama conjuntural deve conciliar a ausência e/ou neutralização das pressões inflacionárias, a necessidade de maior controle das contas públicas e a retratação dos patamares de produção e vendas. Esse último aspecto pode ser evidenciado pelo salto da inadimplência em São Paulo no mês de janeiro de 1998, suplantando a marca histórica registrada em outubro. Conforme levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), houve um aumento de 29,4% e 93,8% dos carnês em atraso em relação a dezembro e janeiro de 1997, respectivamente.
É justamente o elevado nível de inadimplência que vêm inviabilizando a transferência da redução na TBC (taxa do Banco Central) - de 42% ao ano para 34,5% a.a - para o crédito pessoal, que subiu de 6,12% para 7,44% ao mês, devido a decisão de aumento das margens de segurança dos intermediários financeiros.
Por tudo isso é precipitado elaborar qualquer prognóstico sobre as chances de reversão, ou ao menos amenização, da curva de déficits comerciais, deflagrada em paralelo à estabilização inflacionária e derivada, em grande medida, da abertura econômica somada ao regime de moeda apreciada.
De um lado, uma acomodação dos níveis de importação dependeria de forte compreensão da demanda interna, aspecto de elevado custo político. De outro lado, de acordo com o que já foi assinalado, a evolução das exportações pode ser prejudicada pelo colapso asiático. Além disso, o efeito-preço das commodities pode não se repetir no corrente ano, em razão da esperada recuperação da produção e dos estoques mundiais dos produtos agrícolas. Cabe registrar a pronunciada queda das exportações americanas de soja em razão do declínio da fabricação de ração do sudeste asiático. Daí a aposta na continuidade da estratégia de incentivos às exportações por meio de mecanismos não-cambiais (Finamex, Proex, seguro, fundo de aval, etc.).
Na verdade, é praticamente consensual a previsão de retração dos níveis de atividade no primeiro semestre de 1998, vinculada ao menor crescimento da renda agrícola e aos ajustes na produção e no investimento industrial - resultantes dos juros altos e da contenção fiscal -, com repercussões na renda agregada e no emprego. Com isso, o governo FHC se prepara para, simultaneamente, assegurar o controle da inflação e das contas externas e criar espaço para um abrandamento do aperto monetário fiscal durante o ciclo eleitoral.
- GILMAR MENDES LOURENÇO é economista e coordenador do Grupo de Conjuntura do IPARDES.

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