A competitividade alimenta o desemprego
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terça-feira, 07 de setembro de 2004
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
O último registro na carteira de trabalho do vendedor ambulante Idalino Neves, 49 anos, foi feito há 26 anos. Na época, ele tinha 24 anos de idade e trabalhava como tecelão em Alto Paraná (10 km a leste de Paranavaí, noroeste do Estado). Após perder o emprego, Neves arrendou terras e tentou viver da agricultura.
Sem conseguir pagar as dívidas de financiamento da produção, abandonou a atividade e veio para Londrina em busca de novas oportunidades. Desde então, batalha a própria sobrevivência e a da família como trabalhador informal.
Sua trajetória é parecida com a de tantos outros brasileiros desempregados que, sem alternativas, saem definitivamente do mercado de trabalho formal. Segundo a socióloga Simone Wolff, professora doutora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a explicação para o desemprego crescente é histórica.
Diante da competitividade imposta pelo neoliberalismo e pela globalização, as grandes empresas - que após a Segunda Guerra Mundial precisavam de trabalhadores assalariados capazes de sustentar o consumo em massa - adotaram estratégias para diminuir custos.
''A primeira medida é cortar salários'', afirmou. A redução dos postos de trabalho se tornou possível pelo desenvolvimento de tecnologias capazes de substituir a mão-de-obra humana. Além disso, as corporações adotaram métodos de gestão que colocam nas mãos dos empregados a responsabilidade pela produtividade e qualificação. ''O trabalhador torna-se déspota de si mesmo'', criticou, citando o sociólogo Ricardo Antunes.
O neoliberalismo também atribuiu importância exagerada ao capital financeiro. O desemprego, nessa realidade, é mais um meio para a acumulação de riquezas. ''Quanto mais desempregados, mais pessoas endividadas e, consequentemente, mais lucros para as instituições financeiras'', observou.
A grande massa consumista tornou-se menos importante para garantir lucros às corporações. ''O capital tenta ficar independente da classe trabalhadora através do investimento na produção de itens sofisticados'', disse. Paralelamente, os lançamentos de novos produtos se tornam frequentes, criando necessidades até então inexistentes no consumidor.
Para a grande massa, as empresas lançam produtos descartáveis que precisam ser substituídos em curtos intervalos de tempo. Fazem parte desta categoria as capas de aparelhos celulares, óculos de sol e tantas outras quinquilharias que vendedores como Idalino comercializam nas ruas das cidades.
A professora acredita que o resultado dessa conjuntura será a estagnação econômica. Uma possível solução, para ela, estaria na mudança radical da política econômica adotada pelo País. ''Mas isso é difícil, pois estamos inseridos em um contexto internacional'', afirmou.
Alheio às discussões sobre os efeitos da globalização, Idalino tem um único projeto de vida: garantir oportunidades melhores que as suas para as filhas Tatiane, 12, e Cauane, 5. Ele não sabe, entretanto, como atingir esse objetivo. '' A única coisa que sei é que qualquer melhoria na minha vida depende apenas de mim'', finalizou.


