A base da pirâmide no topo do consumo
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quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Renato Oliveira<br>Especial para a FOLHA 
''Há um mês eu comprei um guarda-roupas e estou pagando em 68 reais por mês. Mas ainda faltam uns dois anos para quitar todas as prestações. Tomara que eu não me enrole'', declara Aparecida Alves Batista Veríssimo. Seu perfil é bem parecido com o de uma considerável fatia da população brasileira: dos que sobrevivem com uma renda entre os setecentos e os mil reais. Também é por conta da preconizada estabilidade econômica dos últimos anos, que seu poder aquisitivo aumentou e é visto para o mercado como uma consumidora em potencial.
O maior aliado de Aparecida, sem dúvida, é a facilidade que as lojas oferecem para a abertura de crediários. Na prática, você compra o produto e leva na hora, deixa para pagar só depois movido muitas vezes por impulso e pelo consumismo. ''Já cheguei a pagar mais de 800 reais em contas por mês. Precisava ajudar meus filhos e fiz várias prestações de uma vez só'', enfatiza a idosa de 74 anos que mobiliou a própria casa e ajudou a montar a de seus filhos e netos com este mesmo sistema: comprando no carnê.
''A redistribuição da renda dos programas sociais, como as bolsas sociais e o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento à Agricultura Familiar), do nosso atual governo é importante para explicar a ascensão das classes C, e D/E no consumo. O que mais tem contribuído é o ingresso das pessoas no mercado de trabalho, seja ele formal ou informal. De acordo com dados de 2007, mais de 1 milhão de trabalhadores estão ativos no mercado todo. Por isso, o poder aquisitivo da base da pirâmide vem se ampliando. Mas é importante salientar que toda família tem uma restrição orçamentária, que é o limite de gastos do seu salário'', explica o economista Laércio Rodrigues de Oliveira.
Uma de suas consequências diretas é o aumento do volume do crédito, que têm sido apontado pelos proprietários de lojas no varejo e por especialistas nos últimos anos. ''O consumidor não está preocupado com o valor final do bem. No quanto ele vai pagar pelo eletrodoméstico, mas sim no quanto ele vai gastar por mês com ela. Por isso, cerca de 89% dos lares brasileiros, segundo o IBGE, possuem geladeira e televisão. É o crediário que ajuda essa massa conseguir comprar esses bens'', salienta.
Quando se fala em valores, de acordo com o Data Popular, instituto especializado em pesquisas voltadas para as classes C,D e E, o consumidor com esse perfil movimentou cerca de 550 bilhões de reais em todo o varejo durante 2007. Isso equivale a 52% do gasto total no mesmo período pela mesma categoria de consumidores. ''Hoje, só as compras a prazo representam 12% do PIB nacional e isso faz do crédito uma alavanca para a economia. Isso é verdade em todo país com crescimento sustentável que se baseia em uma classe média bastante extensa. Isso não acontece se for puxado apenas por uma minoria'', acredita Franck Vignard Rosez, diretor de marketing e desenvolvimento da Cetelen - BNP Paribas, que ministrou palestra sobre o tema recentemente em Londrina.
A ascensão de consumidores da classe D/E para a C, apresenta uma nova fase da classe média brasileira, consequência direta de um aumento na renda atrelada ao momento econômico atual que passa por uma estabilidade financeira. Segundo recente levantamento da Fundação Getúlio Vargas, 52% da população brasileira hoje ocupa uma faixa salarial que compreende os R$ 1.064 e R$ 4.591. Por isso eles são classificados como ''A nova classe média'' e seu volume na população deu um significativo salto de 10%, se comparado ao último censo em 2004 que apontava 42%.
Essa nova concentração se deve ao remanejamento dos consumidores da classe D que agora representa 32% do total. Para a FGV, este consumidor ganha entre R$ 768 e R$ 1.064. E a classe E por sua vez, é onde estão os mais pobres e reúne famílias com rendimentos abaixo dos R$ 768. ''Se individualmente, os programas sociais podem não representar um aumento poder aquisitivo do pobre porque, afinal, oitenta reais é pouco e dá apenas para comprar o básico da cesta básica. Por outro lado, a soma disso que é 11 milhões de pessoas é um montante significativo. Em Londrina, que possui cerca de seis mil habitantes com esse perfil e multiplicando por 80 reais isso representa um grande volume movimentado no mercado'', arremata Laércio Rodrigues de Oliveira.


