Os dragões e tigres asiáticos pararam de rugir e estão andando de um lado para o outro, dentro da jaula, com um ar desanimado, quase abobalhado. A Tailândia, Cingapura e até mesmo o ‘‘tigre dos tigres’’, a Coréia do Sul, não param de se lamentar. O próprio Japão, estrela mundial, está começando a ficar sem gás.
E a China? O que anda acontecendo com a China comunista? Oficialmente, sorri. ‘‘Essas crises de fossa são coisa das economias ocidentais, devoradas pela especulação. Mas uma sólida economia comunista, mesmo tendo-se escancarado ao capitalismo mundial desde as reformas de Deng Xiaoping, 20 anos atrás, está ao abrigo dos ventos venenosos que sopram no Sudeste asiático. Nosso comércio é sádio e a inconvertibilidade de nossa moeda protege-nos dos venenos exteriores’’, dizem em Pequim.
Com isso, o Ocidente andava tranquilo: a Coréia do Sul, a Tailândia e até mesmo o Japão já lhe davam dores de cabeça que chegue; se a China ficava longe do ciclone, tanto melhor. Mas, hoje, a conversa está mudando. Estão com medo de que, neste ‘‘disaster movie’’, a China também se espatife! E se a crise devastar o seu bilhão de habitantes? E se, de um dia para o outro, como acreditam alguns especialistas, a China ficar com 30 milhões de desempregados?
Os primeiros sinais de alarma já estão soando na imprensa asiática. ‘‘A China está aplicando a política do avestruz’’, adverte o ‘‘Asian Wall Street’’. E o ‘‘Far Eastern Economic Review’’ bota os pingos nos ii: ‘‘A China está à beira da deflação. Pode haver um desemprego imenso e distúrbios civis.’’
Como é que a China poderia ser devorada pela crise? Sabemos que as moedas fortes dos países vizinhos tiveram de se desvalorizar repentinamente. A consequência automática é que essas desvalorizações aumentam o preço dos produtos chineses num mercado regional em recessão violenta. As exportações chinesas que, nos dez primeiros meses do ano, tinham tido um aumento de 23%, pararam de uma hora para a outra. E, para o ano que vem, os especialistas esperam um novo pé no freio.
Segunda consequência da crise dos dragões: para sustentar o seu aparelho industrial, a China comunista sempre contou com o dinheiro da ‘‘diáspora’’ chinesa. Ora, esses chineses no exílio estão ficando cansados de mandar ‘‘para casa’’ um dinheiro que é mal utilizado. Tudo indica que o fluxo de dinheiro da ‘‘diáspora’’ ou de Taiwan corre o risco de secar.
No parque industrial chinês, os estoques de bens de consumo interno (carros, bicicletas, televisores) já estão começando a se amontoar. Quanto ao investimento externo direto que, este ano, ainda era de US$ 40 bilhões, há previsões de que, em 1998, ele sofra uma queda de 50%, o que estrangularia o crescimento. Nesse caso, o governo chinês seria obrigado a recorrer a seus próprios bancos para fazer a máquina industrial continuar rodando.
Ora, os bancos chineses vão mal das pernas pois, forçados pela economia estatal, tiveram de fazer, por razões estratégicas, empréstimos sem a menor possibilidade de serem devolvidos e, com isso, estão intoleravelmente endividados.
Só mencionamos aqui os indícios negros e preocupantes. É preciso corrigi-los, pois há também sinais mais animadores: a China continua vigorosa e cheia de entusiasmo pela sua experiência de ‘‘capitalismo marxista’’. Ainda é o primeiro exportador asiático para o mercado americano. E pode reduzir os seus custos deslocando alguns de seus conglomerados para regiões mais primitivas de seu imenso território, onde a população aceitaria salários ainda menores do que os pagos nas grandes cidades.
Ainda assim, os germes deletérios são fortes o suficiente para que, ao silêncio sorridente de ontem, suceda-se um riso amarelo. E para que já se comece a questionar alguns equilíbrios políticos. Durante o recente 15º Congresso do Partido Comunista Chinês, o sucessor de Deng, Jiang Zemin, tinha falado em um novo ‘‘salto para a frente’’, pois um regime politicamente duro como o de Pequim só pode evitar o choque político se, pelo menos, garantir ao povo uma vida melhor e um crescimento regular.
Há vários anos que esse crescimento está proximo da porcentagem enorme de 10%. Se esse índice refluir para 6%, por exemplo, o que ainda é muito alto, já se poderia temer uma certa inquietação. Seria o bastante para que os meios conservadores, que nunca aceitaram a abertura para o ‘‘capitalismo à moda chinesa’’, concebida por Deng e levada adiante por Jiang, voltem ao ataque pregando o retorno à orotodoxia austera dos tempos da economia marxista.

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