Segundo um dono de posto de combustível de Londrina que preferiu não se identificar, se ele se recusar a trocar cartas-fretes, terá de deixar a atividade de revenda de diesel. "Pelo menos 70% dos caminhoneiros que abastecem aqui vêm com carta-frete", afirma. Para ele, o sistema não é vantajoso. "Já levei muito calote de transportadora. Uma vez tive de ir a Santa Catarina para tentar receber R$ 40 mil de carta-frete e não consegui. Também já peguei muito cheque sem fundo de outros postos", revela.
Ele explica as condições de troca do documento em seu estabelecimento. "Se o caminhoneiro abastecer 50% do valor da carta, eu cobro o preço do diesel à vista. Se abastecer 40%, cobro um pouco mais no valor do combustível. E, se for 30% ou menos, o diesel sai ainda mais caro para ele", conta.
Se a carta-frete é um sistema arriscado, o novo formato tem alto custo. "Essas empresas de cartão (homologadas pela ANTT) cobram do posto uma tarifa que varia de 3% a 4% do valor da venda de diesel", afirma. Esse custo, o empresário admite repassar ao caminhoneiro. "Não tenho como absorver", destaca.
A reportagem procurou o Sindicato das Empresas de Transporte do Paraná (Setcepar) para saber por que elas não fazem o pagamento diretamente na conta do caminhoneiro em vez de contratar as empresas de cartão. O presidente da entidade, Gilberto Cantú, explica que a resolução 3.658, além de definir a forma de pagamento do caminhoneiro autônomo, estabelece o Código Identificador da Operação de Transportes (Ciot).
Toda vez que contratar um autônomo, a transportadora ou o embarcador tem de gerar o Ciot, informando uma série de dados como valor do frete e destinatário. Esta é a forma que o governo encontrou para combater a sonegação no setor. "Pela resolução, essas empresas são obrigadas a oferecer um sistema para gerar Ciot gratuitamente em seus sites", conta Cantú. Acontece que, de acordo com ele, esses sistemas gratuitos não funcionam, estão sempre fora do ar, ou são muitos morosos. "É claro, o interesse dessas empresas é de serem contratadas pela transportadora e não trabalhar de graça", destaca.
Cantú diz que as empresas homologadas ganham dos dois lados, dos postos e das transportadoras. "De nós, elas cobram entre 0,8% e 1,3% do valor do frete como tarifa". Ele ressalta que o Setcepar é pela legalidade e recomenda aos sócios que não usem carta-frete. "A gente só critica esse sistema atual, que foi feito para as empresas de cartão ganharem dinheiro", afirma.
Questionado se a carta-frete não se eternizou como forma de permitir aos transportadores sonegarem impostos, ele declara: "Se serviu para isso algum dia, hoje não serve mais." Desde o ano passado, as transportadoras estão sendo obrigadas paulatinamente a adotarem o Conhecimento Eletrônico de Frete (CT-e). As únicas que ainda não precisam fazer isso são as microempresas. "Mas essa obrigação também recai sobre elas a partir de dezembro", justifica. (N.B.)

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