O cartão de crédito é a principal ameaça à saúde financeira das famílias brasileiras. É o que revela uma pesquisa divulgada ontem pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, a Proteste. Segundo a entidade, 38,1% dos entrevistados afirmaram não conseguir pagar as faturas na data de vencimento, sendo que o gasto médio é de até R$ 500.
A Proteste entrevistou 200 famílias nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, concentradas principalmente entre as classes C (60,5% da amostra) e B (27,5%). A renda e dívida médias apuradas foram de R$ 2.401 e R$ 1.009,45, respectivamente.
O cartão de crédito é a modalidade mais cara de endividamento. Em outro levantamento, a Proteste mostrou que o juro pode chegar a 323% ao ano no País. Embora bancos como a Caixa Econômica Federal tenham baixado recentemente as taxas para até 4,27%, na maioria dos demais instituições elas ainda estão na faixa de 11% a 15% por mês.
''É preciso ver todas as possibilidades. Vale mudar de banco, fazer um empréstimo pessoal com taxas mais atrativas para quitar a dívida do cartão'', afirma o advogado Flávio Caetano de Paula, que é diretor adjunto do Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor (Brasilcon).
Segundo ele, os brasileiros precisam fugir do cartão e do cheque especial, que são as modalidades mais caras e que mais geram ''bolas de neve''.
Comprometimento
De forma geral, o estudo da Proteste mostrou que as famílias brasileiras, em especial as da classe C, estão mais endividadas que o recomendado pelos especialistas. Segundo a entidade, 42% da renda familiar estão comprometidos com as dívidas, sendo que o limite ideal é de 30%.
Desdobrado, o dado mostra que a maior parte (56,6%) tem dívidas de até R$ 500. Uma parcela considerável (38%), porém, deve mais de R$ 5 mil, o que explica a média situada em R$ 1 mil.
Um quinto dos pesquisados dizem que contraíram uma nova dívida desde abril, sendo que quase metade desse porcentual o fez para quitar outros débitos. Entre dívidas assumidas há mais tempo, 30% dos entrevistados disseram que ainda estão inadimplentes, mas a expectativa é quitar os valores no médio prazo.
Os valores devidos impactam na qualidade de vida dos entrevistados: 57% dizem que limitaram os gastos em lazer, cultura, diversão ou consumo de bens, entre outros.
De acordo com Caetano de Paula, o Poder Judiciário e os Procons estão atentos ao processo de superendividamento das famílias brasileiras. E começam a desenvolver projetos pilotos para ajudá-las a resolver o problema. ''Eles chamam os credores, apresentam proposta em nome dos devedores e homologam acordos. Assim, o consumidor sai do fundo do poço e o credor recebe aquilo que não receberia de outra forma'', ressalta.
Especialista em direito do consumidor, ele realiza trabalho parecido para seus clientes. ''Desde o ano passado, aumentou em seis vezes o número de pessoas que me procuram por causa de dívidas'', conta. O escritório notifica os credores e explica que o cliente vai dar prioridade àqueles que oferecerem a melhor proposta.

Imagem ilustrativa da imagem 38% das famílias brasileiras não pagam cartão em dia
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