Na divisa com o estado de São Paulo, no ponto mais extremo do Norte Pioneiro, o município de Itambaracá vem ganhando notoriedade nos últimos meses por um impulso no desenvolvimento. Com pouco menos de 6 mil habitantes, a cidade, assim como tantas outras de pequeno porte, sofre com a escassez de mão de obra técnica e qualificada em diversas áreas, sendo a engenharia uma das principais.

Para suprir essa necessidade, o Crea-PR (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná), em parceria com a Itaipu Binacional e a UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), lançou o Programa Mais Engenharia, com o objetivo de levar engenheiros recém-formados para dentro dos municípios de pequeno porte e tirar obras importantes do papel, trazendo benefícios diretos à população, como saúde, lazer, educação e infraestrutura.

Everton Vizoto de Souza é supervisor do Mais Engenharia no município de Itambaracá e enxerga o programa como uma via de mão dupla, já que beneficia tanto a cidade quanto o profissional. “É uma ajuda imensa para o município, por ter mais um técnico ali dentro do setor da engenharia, e também para o residente, para o engenheiro que está iniciando e tendo contato com a área pública”, explica.

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Projetos em andamento

Com a saída de uma engenheira, Souza estava comandando o setor sozinho no município antes da chegada de Rafael Pinatti Andreani, bolsista do Programa Mais Engenharia. Em conjunto, a dupla vem tirando diversas obras do papel, como uma praça pública, um clube e a ampliação de UBS (Unidade Básica de Saúde), que vai ganhar mais de 150 metros quadrados de espaço útil para os atendimentos à população.

O investimento destinado para a obra foi de R$ 550 mil. “É um impacto direto para a saúde do município. A população realmente vai sentir uma melhora”, garante Souza.

Everton de Souza, supervisor do Mais Engenharia e o bolsista Rafael Andreani estão desenvolvendo diversas obras públicas em Itambaracá
Everton de Souza, supervisor do Mais Engenharia e o bolsista Rafael Andreani estão desenvolvendo diversas obras públicas em Itambaracá | Foto: Kaori Rossi/ Mult TV

Qualidade de vida, lazer e esporte

No caso do Clube Jaborandi, o único local de evento do município e que estava abandonado há alguns anos, eles conseguiram capitanear pouco mais de R$ 2 milhões para reformar toda a estrutura e trazer a vida de outrora para o clube. Ainda pensando no lazer para os itambaracaenses, o município projetou e vem executando a obra de duas quadras de areia para a prática de beach tennis.

Porém, entre todas as obras, Rafael Pinatti Andreani destaca uma em especial: o projeto para a construção do Parque Municipal de Itambaracá. Em um terreno de 10 mil metros quadrados às margens do Córrego Jaborandi, o parque vai contar com uma área de preservação da mata nativa, com um museu a céu aberto, uma concha acústica e uma área esportiva, com atividades voltadas à população.

A obra é vultosa, com a expectativa de investimento entre R$ 5 e R$ 10 milhões. Andreani fala com carinho da obra, que vai ser o projeto de conclusão da pós-graduação vinculada ao programa Mais Engenharia, já que todos os bolsistas precisam cumprir uma especialização em engenharia e desenvolvimento sustentável.

A obra está em fase de pré-projeto e a expectativa do engenheiro é que o esboço completo seja entregue no final de 2027 para que o município possa começar a captar investimentos para tirar a obra do papel.

Projetos compartilhados

Além disso, o projeto permite com que o parque possa ser replicado em outros municípios. Por isso, ele explica que cada pedacinho do parque foi separado em módulos, em que outras prefeituras podem colocar em prática em suas respectivas cidades de acordo com o espaço ou dinheiro disponível.

“Essa replicabilidade é uma ideia do programa para que outros municípios possam utilizar esse projeto que a gente está propondo para Itambaracá como base. Caso eles tenham interesse, eles podem optar por um ou outro módulo, de acordo com a necessidade do município”, explica.

Por conta da proximidade com o município de Bandeirantes, que fica a cerca de 15 quilômetros, a ideia é planejar um museu a céu aberto voltado ao turismo religioso para atrair os visitantes que vão ao Santuário de São Miguel Arcanjo.

“Além de trazer o turismo, vai trazer dinheiro para a cidade de Itambaracá, vai trazer um movimento para criar hotéis, movimento para o comércio, vai trazer também o esporte, vai trazer lazer para a população local, então vai ser benéfico de diversas formas para o município”, opina.

Transição de carreira

Andreani concluiu a graduação no início de 2025 após uma transição de carreira do direito para a engenharia. Ainda sem experiência profissional, ele enxergou no programa uma oportunidade de ingressar na carreira como engenheiro civil mesmo ainda sendo recém-formado e com pouca vivência prática. De início, o que mais chamou a atenção foi o caráter inovador do programa. Ele ingressou no programa há um ano, em outubro de 2025, meses após concluir a graduação.

“É uma experiência que dificilmente uma pessoa tem. Começar com uma grande quantidade de obras, um grande vulto de projetos, está sendo bem gratificante”, afirma. Everton Vizoto de Souza relembra que também já foi um profissional recém-formado e sabe da dificuldade que é encontrar uma ‘porta aberta’ no mercado de trabalho, já que muitas empresas exigem um profissional com experiência, afastando aqueles que estão no início de carreira.

“Eu infelizmente não tive essa oportunidade, mas para o Rafael é excelente. São 50 municípios beneficiados, então são 50 engenheiros aqui no estado do Paraná a mais ingressados no mercado de trabalho, podendo vivenciar hoje o setor público”, afirma, destacando uma ampla gama de contatos que os bolsistas conseguem por meio do programa.

Os desafios

Para ele, o principal desafio de um profissional recém-formado é a insegurança, já que a universidade oferece um ‘norte’, um diploma, mas é na rotina do trabalho, no dia a dia, que vem a experiência da profissão. “A engenharia é ampla, ela te dá várias possibilidades, então ali dentro da prefeitura você tem contato com todo tipo de projeto, desde levantamento em campo, fiscalização, medição. Isso traz uma experiência vasta para o residente em engenharia”, detalha.

Mesmo com Souza estando ali para orientar Andreani, existe uma troca de experiência de ambos os lados, o que é uma parte fundamental do programa. “É sempre uma troca. É realmente o que eu estava esperando do programa”, garante o bolsista, citando que ao mesmo tempo em que aprende, ele também consegue somar forças com a equipe da prefeitura e trazer melhorias ao município.

Fortalecimento dos municípios

A exemplo do sucesso que o programa Mais Engenharia vem alcançando em Itambaracá, Everton Vizoto de Souza aconselha que municípios, principalmente aqueles de pequeno porte, invistam na engenharia, tanto em profissionais quanto em equipamentos. Com mais recursos humanos, é mais fácil tirar as obras do papel e dar andamento às demandas dos municípios.

“O programa vem justamente com essa ideia de fortalecer a equipe, dar mais força de trabalho para conseguir entregar mais obras e, além disso, pequenos municípios têm a questão também que os recursos são bastante escassos”, opina Rafael Pinatti Andreani.

O engenheiro garante que este primeiro ano como bolsista do Mais Engenheira vem sendo uma excelente experiência, principalmente pela parte prática do aprendizado. “Está sendo uma experiência que dificilmente eu teria em tão curto prazo se eu fosse cuidar de projetos particulares. Está sendo bastante gratificante trazer essa mudança para Itambaracá”, finaliza.

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