A falta de projetos técnicos ainda é um dos principais entraves para o desenvolvimento de municípios de pequeno porte no Paraná. Sem eles, cidades ficam impedidas de acessar recursos estaduais e federais, travando obras e melhorias em áreas essenciais como saúde, infraestrutura e educação. É justamente para enfrentar esse gargalo que foi criado o Programa Mais Engenharia, uma iniciativa do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná-Crea-PR, Itaipu Binacional/Governo Federal e Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG
A iniciativa leva engenheiros civis recém-formados, estudantes de engenharia civil e tecnologia de ponta diretamente para dentro das prefeituras, com o objetivo de estruturar projetos e viabilizar a captação de recursos públicos. Em pouco mais de dois meses de execução, entre outubro e novembro, o programa já apresentou resultados expressivos, com cerca de R$ 100 milhões em projetos estruturados nos municípios participantes, que agora avançam para as etapas de análise e possível licitação.
“A gente sempre trabalhou a favor da sociedade exigindo que toda obra tivesse um profissional responsável, e isso sempre funcionou bem. Mas percebemos que poderíamos fazer mais do que apenas fiscalizar. Temos um grande número de profissionais e entendemos que poderíamos contribuir de forma mais direta com o desenvolvimento dos municípios”, afirma Euclesio Manoel Finatti, engenheiro civil e assessor do Crea-PR.

CAMINHO PARA O DESENVOLVIMENTO
O programa foi lançado em 2025, selecionou 50 municípios entre os 167 inscritos no Estado.
Segundo Finatti, a proposta é levar estrutura completa para dentro das prefeituras. Ao todo, foram selecionados por meio de edital 50 engenheiros civis, com até três anos de formados, e 50 estagiários, entre público feminino e masculino, que atuam em regime de residência técnica por dois anos, com apoio de equipamentos de alta performance.
Os profissionais cumprem jornada de seis horas diárias nas prefeituras e recebem remuneração equivalente ao salário mínimo profissional. Paralelamente, realizam uma Especialização em Gestão Pública em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável, também com duração de dois anos.
A proposta, como explica o representante do Crea-PR, é combinar prática e qualificação, ao mesmo tempo em que incentiva a permanência desses profissionais no interior. A ideia é que eles se integrem à realidade dos municípios e possam, inclusive, construir carreira nessas cidades.
Ele destaca que o impacto vai além da formação individual e contribui diretamente para o desenvolvimento local. A expectativa é que cada engenheiro elabore, no mínimo, dois projetos por ano durante o período do programa, ampliando a capacidade dos municípios de captar recursos e tirar obras do papel.
Na avaliação de Finatti, o diferencial está justamente na formação integrada. Além da atuação técnica, os profissionais passam a compreender o funcionamento da gestão pública, o que influencia diretamente na efetividade dos projetos.
“A gente espera que, ao longo desses dois anos, o profissional adquira conhecimento em gestão pública, não só para buscar recursos, mas também para organizar melhor a prefeitura e o próprio ambiente de trabalho. Muitos chegam sem saber como funciona a máquina pública, como fazer uma licitação ou contratar uma empresa, e o curso traz esse viés técnico para que eles entendam esses processos e consigam fazer os projetos acontecerem”, explica.

O IMPACTO NA PRÁTICA
Em Nova Santa Bárbara, no Norte Pioneiro, o programa já mudou a realidade da administração municipal e é recebido com muita expectativa pelo prefeito Claudemir Valério (PSD), mais conhecido como Garrafa. Com pouco mais de 4 mil habitantes, a cidade, a cerca de 80 km de Londrina, enfrentava dificuldades para desenvolver projetos e acessar recursos antes da chegada do Mais Engenharia.
Segundo Garrafa, a principal barreira era justamente a falta de equipe técnica suficiente. Mas, com a presença de uma engenheira vinculada ao programa, Débora dos Santos Pereira, o município passou a avançar em diversas frentes. Entre os projetos em andamento estão a ampliação de unidades de saúde, além do planejamento de novos espaços, como almoxarifado, garagem e sala de fisioterapia.
“Para nós, o programa é ótimo, foi algo que caiu do céu. A nossa maior dificuldade era na elaboração de projetos, porque a demanda é grande e nossos engenheiros não davam conta. Hoje temos mais de R$ 20 milhões em obras para executar, em áreas como saúde, educação e infraestrutura, e sem esse apoio muitos projetos nem sairiam do papel”, destaca.
Além da elaboração de projetos, a profissional também atua no planejamento e na fiscalização de obras, contribuindo para a organização da gestão municipal e para a melhoria da qualidade técnica das propostas. Para o prefeito, a chegada da engenheira aconteceu no momento certo, pois permitiu que projetos importantes começassem a tomar forma.

MAIS VANTAGENS
Outro ganho apontado é a redução no tempo de tramitação. Garrafa afirma que, antes, era comum que propostas levassem meses em um processo de análise com idas e vindas entre prefeitura e órgãos financiadores. Com maior qualidade técnica desde o início, a expectativa é que esse tempo seja reduzido, aumentando as chances de aprovação e execução das obras.
A introdução de novas tecnologias no processo de elaboração de projetos, principalmente o uso do BIM (Building Information Modeling), também se destaca.
A ferramenta permite a criação de modelos digitais completos das obras, integrando todas as informações em uma única plataforma. Isso reduz erros, melhora o planejamento e tende a eliminar problemas comuns na execução, como aditivos contratuais decorrentes de falhas de projeto.
Finatti espera que, no futuro, essa tecnologia transforme também os processos de licitação pública, tornando-os mais precisos e eficientes.
POLÍTICA PÚBLICA EM CONSTRUÇÃO
Para o Crea-PR, o Mais Engenharia representa uma mudança de paradigma na atuação da entidade, que tem como foco aproximar a engenharia das demandas reais da sociedade.
“A gente quer avançar com o Mais Engenharia. Queremos mostrar que temos condições de estar ao lado da população, fazendo com que o trabalho técnico aconteça de forma correta, visível e que realmente ajude e proteja as pessoas”, conclui.
Ainda em fase inicial, o programa aponta para um modelo que pode ser ampliado e replicado em nível nacional, mostrando o papel da engenharia como ferramenta estratégica para o desenvolvimento regional e para a redução das desigualdades entre cidades de diferentes portes.