Multi-club ownership no Brasil
Revolução, riscos e o futuro do futebol brasileiro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de março de 2026
Revolução, riscos e o futuro do futebol brasileiro

Uma nova lógica de poder no futebol brasileiro
Durante décadas, o futebol brasileiro foi estruturado em torno de clubes associativos, profundamente ligados às suas torcidas e identidades locais. Esse modelo, embora culturalmente forte, acumulou problemas financeiros graves ao longo do tempo: dívidas bilionárias, gestões instáveis e pouca capacidade de competir economicamente com a Europa.
A criação da Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) em 2021 abriu uma porta que mudou completamente esse cenário. De repente, clubes puderam se transformar em empresas, atrair investidores e, principalmente, entrar em um sistema que já dominava o futebol global: o multi-club ownership (MCO).
Esse modelo, baseado em grupos que controlam múltiplos clubes ao redor do mundo, começou a ganhar força no Brasil com nomes como City Football Group, Red Bull, Eagle Football e 777 Partners. E o impacto não é apenas financeiro — é estrutural, cultural e até identitário, influenciando também a forma como o futebol é consumido, analisado e até mesmo acompanhado por novos públicos, incluindo aqueles que exploram plataformas e oportunidades como o código Superbet para novos usuários em 2026 dentro de um ecossistema esportivo cada vez mais globalizado.
SAF: o gatilho que tornou o Brasil atraente para investidores
Antes da SAF, investir em clubes brasileiros era um território de alto risco. Dívidas herdadas, pouca transparência e governança limitada afastavam grandes grupos internacionais.
A nova legislação mudou essa equação. Ao permitir a separação entre os passivos históricos e a nova empresa do futebol, a SAF criou uma espécie de “reset financeiro”. Investidores passaram a adquirir ativos mais limpos, com regras claras de governança, possibilidade de emitir títulos, captar recursos e operar com lógica empresarial.
Na prática, isso transformou o Brasil em um mercado altamente atrativo. Não apenas pelo tamanho das torcidas ou pelo talento dos jogadores, mas porque finalmente passou a existir um ambiente minimamente previsível para investimento.
E foi exatamente nesse contexto que os grupos multi-clubes encontraram espaço para entrar.
City Football Group: Bahia como peça de um sistema global
A entrada do City Football Group no Bahia é talvez o exemplo mais emblemático dessa nova fase. Em 2023, o grupo adquiriu cerca de 90% da SAF do clube, em uma operação avaliada em aproximadamente 200 milhões de dólares.
Mais do que o valor investido, o que chama atenção é a lógica por trás da operação. O Bahia não é visto isoladamente, mas como parte de uma rede global que inclui clubes como Manchester City, Girona e outros ativos estratégicos.
Isso significa acesso a:
- modelos de gestão padronizados
- estruturas de scouting global
- desenvolvimento integrado de jogadores
- compartilhamento de conhecimento técnico
O impacto já começou a aparecer dentro de campo e fora dele. O clube ganhou estabilidade, melhorou sua estrutura e passou a operar com uma visão muito mais alinhada ao futebol moderno.
Mas isso também levanta uma questão importante: até que ponto o Bahia continua sendo “Bahia” dentro de um sistema global?
Red Bull Bragantino: o laboratório mais consolidado
Se o caso do Bahia representa a expansão recente do MCO, o Red Bull Bragantino é o exemplo mais consolidado no Brasil.
Desde 2019, o clube passou por uma transformação completa. De uma equipe modesta do interior paulista, tornou-se um projeto altamente estruturado, baseado em:
- recrutamento de jovens talentos
- análise de dados
- padronização de estilo de jogo
- integração com a rede global Red Bull
O investimento em infraestrutura e desenvolvimento foi significativo, ultrapassando centenas de milhões de reais. Em poucos anos, o Bragantino saiu da Série B para se tornar presença constante na elite e disputar competições continentais.
Diferente de outros casos, a aceitação do modelo por parte da torcida foi relativamente tranquila. Muito disso se explica pelos resultados esportivos e pela ausência de um passado recente glorioso que criasse resistência à mudança.
O clube virou, na prática, um hub de desenvolvimento e valorização de jogadores, com forte conexão ao mercado europeu.
Eagle Football: sucesso esportivo e turbulência financeira no Botafogo
O caso do Botafogo com a Eagle Football, liderada por John Textor, é provavelmente o mais complexo e contraditório.
Por um lado, o impacto esportivo foi imediato e impressionante. O clube saiu de uma situação crítica para conquistar títulos importantes, incluindo o Brasileirão e a Libertadores, além de garantir presença internacional e crescimento de receitas.
Os números mostram essa evolução: receitas saltaram significativamente, dívidas foram reduzidas em cerca de 60% e novas fontes de renda surgiram, como patrocínios e transferências de jogadores.
Por outro lado, surgiram problemas relevantes. Disputas judiciais, dívidas não resolvidas e questionamentos sobre a estrutura financeira da holding colocaram o projeto sob pressão.
Esse caso revela um ponto central do MCO no Brasil: o modelo pode acelerar resultados, mas também expõe os clubes a riscos externos que fogem ao controle local.
777 Partners e o Vasco: promessa, crise e conflito
Se o Botafogo representa um caso ambíguo, o Vasco da Gama com a 777 Partners é um exemplo claro de como o modelo pode falhar.
A entrada da 777 foi inicialmente vista como uma solução para anos de crise. O acordo previa investimentos massivos, modernização e integração a uma rede global.
No entanto, problemas financeiros da própria holding geraram uma crise profunda. O clube se viu envolvido em disputas legais, com questionamentos sobre cumprimento de obrigações e até remoção da gestão.
Esse episódio levantou dúvidas importantes sobre:
- a solidez financeira dos investidores
- a dependência excessiva de grupos externos
- os mecanismos de proteção dos clubes dentro da SAF
Para muitos torcedores, foi a confirmação de que nem todo investimento estrangeiro representa estabilidade.
Os benefícios reais do multi-club ownership
Apesar das controvérsias, o modelo trouxe ganhos claros para o futebol brasileiro.
Entre os principais benefícios estão:
- profissionalização da gestão, com estruturas mais eficientes
- acesso a capital internacional, antes inexistente
- melhoria de infraestrutura e tecnologia
- integração global de scouting e desenvolvimento
- aumento de receitas e valorização dos clubes
A própria Série A registrou crescimento significativo de receitas nos últimos anos, refletindo esse novo ambiente.
Além disso, clubes passaram a competir de forma mais equilibrada, reduzindo a distância histórica em relação aos gigantes tradicionais.
Os riscos: identidade, controle e integridade esportiva
Mas o avanço do MCO também trouxe preocupações profundas.
A principal delas é a perda de identidade dos clubes. Muitos torcedores sentem que seus times estão sendo transformados em peças de um sistema maior, onde decisões estratégicas não são mais tomadas localmente.
Outro ponto crítico é o conflito de interesses. Quando um mesmo grupo controla múltiplos clubes, surgem dúvidas sobre:
- transferências internas de jogadores
- prioridades esportivas
- integridade de competições
Além disso, existe o risco financeiro. Como mostrado nos casos de Eagle e 777, problemas na holding podem impactar diretamente o clube, independentemente de sua realidade local.
A reação dos torcedores: entre esperança e resistência
Talvez o aspecto mais interessante dessa transformação seja a reação das torcidas.
Ela está longe de ser uniforme.
Em alguns casos, como Bragantino, há aceitação quase total. Em outros, como Botafogo, existe apoio condicionado aos resultados. Já em clubes tradicionais como Flamengo e Corinthians, há forte resistência à ideia de se tornarem SAF.
As manifestações mostram essa divisão:
- protestos contra “privatização” dos clubes
- boicotes a ingressos e programas de sócio
- disputas políticas internas
- petições e mobilizações de massa
Em muitos casos, os torcedores não rejeitam necessariamente o investimento, mas exigem transparência, respeito à história e garantias de autonomia.
O futuro: inevitável, mas ainda em construção
O multi-club ownership no Brasil não é uma tendência passageira. Ele faz parte de um movimento global que já redefiniu o futebol europeu e agora encontra no Brasil um dos seus mercados mais estratégicos.
A combinação entre talento abundante, clubes endividados e nova legislação criou um ambiente perfeito para esse modelo crescer.
Mas o futuro ainda está em aberto.
O Brasil precisará equilibrar três forças:
- a necessidade de investimento e profissionalização
- a preservação da identidade dos clubes
- a criação de regras que garantam integridade esportiva
Se conseguir encontrar esse equilíbrio, o país pode não apenas se adaptar ao novo modelo, mas se tornar um dos principais centros do futebol global, atraindo cada vez mais atenção internacional — inclusive de quem acompanha o esporte também sob a ótica das apostas, analisando tendências e desempenho em uma plataforma de apostas que mais paga.
Caso contrário, corre o risco de transformar seus clubes em meras extensões de impérios internacionais.
E é exatamente nessa tensão entre evolução e perda de controle que o futebol brasileiro está sendo redefinido hoje.


Da Redação
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