Todo excesso esconde uma falta
O chemsex pode ser compreendido também como uma tentativa desesperada de dar forma a um vazio interno
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
O chemsex pode ser compreendido também como uma tentativa desesperada de dar forma a um vazio interno
Sylvio do Amaral Schreiner 

O fenômeno conhecido como chemsex, a mistura deliberada entre uso de drogas e práticas sexuais, frequentemente em contextos prolongados e grupais, tem se tornado objeto de crescente preocupação, expressando uma tendência contemporânea mais ampla: a busca por experiências que prometem intensificação do prazer ao preço do esvaziamento subjetivo.
A prática do chemsex não é apenas o uso de drogas em um contexto sexual; ela envolve uma espécie de ritual moderno onde o sujeito busca transcender seus limites corporais, emocionais e até temporais, em jornadas que podem durar dias. Substâncias como metanfetamina, GHB, mefedrona, entre outras, são utilizadas com o intuito de desinibir, prolongar a excitação, anestesiar angústias e apagar barreiras psíquicas. No entanto, aquilo que é vivido como liberdade pode rapidamente se tornar prisão. O que começa como potência, termina muitas vezes em impotência: emocional, relacional e social.
Do ponto de vista psicanalítico, é possível pensar que o chemsex responde a um imperativo de gozo autoritário que convoca o sujeito a “não perder nada”, a gozar sem limites, mesmo que isso signifique ultrapassar os próprios sinais do corpo e do psiquismo. Há uma recusa dos limites constitutivos da experiência humana. A finitude, a espera, o outro como diferente, o intervalo entre desejo e satisfação, tudo isso é percebido como insuportável. Nesse cenário, o uso das drogas não é apenas um adereço do prazer sexual, mas um operador psíquico que sustenta a ilusão de que é possível abolir o sofrimento sem transformar suas causas.
O chemsex pode ser compreendido também como uma tentativa desesperada de dar forma a um vazio interno. Muitos sujeitos envolvidos nessas práticas relatam histórias marcadas por solidão, rejeição, abusos, exclusão familiar ou social. Para alguns, há um sentimento de inadequação crônica, um corpo vivido como estranho, uma sexualidade que não encontrou acolhimento. A repetição do chemsex aparece, então, como uma cena em que se pode “pertencer”, ser desejado, fundir-se com o outro, ainda que ao custo de perder-se de si mesmo. O vínculo erótico, mediado por substâncias químicas, torna-se uma zona de amortecimento do sofrimento, mas também um local onde o sujeito fica cativo de uma lógica compulsiva.
As consequências são graves e já amplamente documentadas: aumento da transmissão de infecções sexualmente transmissíveis, surtos psicóticos, episódios de overdose, isolamento social, rupturas familiares, perda de vínculos afetivos e profissionais. Contudo, talvez a consequência mais devastadora seja aquela menos visível: a incapacidade crescente de o sujeito sustentar um encontro amoroso ou sexual que envolva afeto, diferença e frustração, ou seja, um encontro que seja verdadeiramente humano.
A psicanálise, ao se debruçar sobre esse fenômeno, não o reduz apenas a uma patologia individual, mas o compreende como sintoma de um mal-estar coletivo. Vivemos tempos em que a fragilidade psíquica é mascarada por performances de potência e invulnerabilidade. O chemsex, nesse contexto, é um grito silencioso por uma outra forma de contato menos anestesiada, mais verdadeira. É tarefa da escuta analítica possibilitar que esse grito encontre palavras, história, e que o sujeito possa, pouco a pouco, sustentar o peso do desejo sem se perder no excesso. Porque como todos já sabem todo excesso esconde uma falta e nesse caso é falta de contato humano verdadeiro e autentico.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


