Sobre as crianças e psicopatias
Caso da criança no Paraná que matou animais gera um questionamento inevitável: pode esse tipo de comportamento ser um indício de psicopatia?
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
Caso da criança no Paraná que matou animais gera um questionamento inevitável: pode esse tipo de comportamento ser um indício de psicopatia?
Sylvio do Amaral Schreiner 

A psicopatia, ou transtorno de personalidade antissocial, é um tema que, embora mais frequentemente associado a adultos, levanta questões importantes quando falamos de sua possível manifestação em crianças. Este transtorno envolve padrões comportamentais que demonstram desprezo pelos direitos e sentimentos dos outros, associando-se a comportamentos manipulativos, cruéis e frequentemente violentos. Entretanto, como psicanalistas, é essencial nos distanciarmos de julgamentos morais e abordarmos a questão a partir de um ponto de vista clínico, considerando as múltiplas camadas de significados psíquicos envolvidos.
Um caso recente no Paraná, em que uma criança invadiu um hospital veterinário e matou 23 animais, gera um questionamento inevitável: pode esse tipo de comportamento ser um indício de psicopatia? E mais importante, podemos diagnosticar e tratar essa condição em crianças pequenas?
Do ponto de vista psicanalítico, é necessário cautela antes de rotular comportamentos extremos de crianças como expressão de psicopatia. Sabemos que a estrutura psíquica da criança está em desenvolvimento e que muitas vezes, atos de crueldade podem ser expressões de angústia ou tentativas de lidar com impulsos primitivos ainda não elaborados simbolicamente. Freud já apontava que as crianças podem passar por fases de intensa agressividade. Essas fases, no entanto, fazem parte do crescimento psíquico e não devem ser confundidas com uma patologia definitiva.
A psicanálise, ao estudar a vida mental infantil, nos mostrou como o mundo interno da criança é inicialmente dominado por fantasias primárias de destruição e reparação. Essas fantasias se traduzem em emoções profundas de amor e ódio, que, quando bem elaboradas, permitem o desenvolvimento de sentimentos de empatia e a capacidade de formar laços afetivos. Quando esse processo de elaboração falha, no entanto, pode resultar em uma desorganização psíquica, onde as pulsões destrutivas prevalecem sem a mediação do pensamento ou da empatia. No caso da criança que matou os animais, é possível que estejamos diante de uma falha significativa nesse processo de elaboração, sugerindo uma incapacidade de simbolizar adequadamente seus impulsos agressivos.
O que sabemos é que, na psicanálise, consideramos o sintoma como uma forma de comunicação. O ato de matar animais não deve ser visto apenas como um comportamento violento isolado, mas como um sintoma que revela algo profundo sobre o estado psíquico da criança. Talvez seja uma manifestação de uma angústia inominável, uma forma desesperada de lidar com sentimentos de impotência, abandono ou desamparo. Ao invés de interpretarmos esse comportamento como uma evidência de psicopatia inata, seria mais produtivo
buscar compreender o contexto emocional e familiar em que essa criança está inserida. Existem situações de trauma não elaboradas? Falta de um ambiente suficientemente acolhedor para a expressão de suas angústias? Esses são aspectos que precisam ser investigados com delicadeza e atenção.
Então, pode a psicopatia ser reconhecida e tratada em crianças pequenas? Crianças estão em um contínuo processo de desenvolvimento psíquico e, como tal, seus comportamentos devem ser compreendidos dentro desse contexto de plasticidade emocional. Embora algumas crianças possam demonstrar comportamentos que sugerem uma ausência precoce de remorso ou empatia, é essencial um olhar cuidadoso para entender o que está acontecendo em seu mundo interno. Ao invés de rotular, o foco deve estar em oferecer um ambiente terapêutico que favoreça a compreensão e a contenção de seus impulsos.
Se a intervenção precoce puder oferecer a essas crianças a oportunidade de explorar suas emoções e seus comportamentos de forma simbólica, é possível evitar que esses comportamentos se consolidem como características de uma psicopatia adulta. Portanto, o tratamento não deve ser visto como uma tentativa de "curar" algo inato, mas de oferecer ferramentas emocionais para que a criança desenvolva sua capacidade de refletir sobre seus sentimentos e ações, diminuindo a necessidade de agir de forma violenta ou destrutiva.
O caso no Paraná é um exemplo extremo que nos leva a refletir sobre a importância de uma intervenção precoce, cuidadosa e empática. A psicanálise nos oferece uma lente através da qual podemos observar que, mesmo nos comportamentos mais perturbadores, há uma tentativa de comunicação e um pedido de ajuda que merece ser escutado com atenção.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


