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Londrina

Sylvio do Amaral Schreiner - Mundo Vivo

m de leitura Atualizado em 11/07/2022, 03:30

Só podemos esquecer quando lembramos

Esquecer não implica em apagar da memória ou fingir que não existiu, porém requer que seja desapegado

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de julho de 2022

Sylvio do Amaral Schreiner
AUTOR autor do artigo

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Aquilo que não pode ser lembrado não pode ser esquecido. Na vida se faz importante esquecermos determinadas coisas. Não podemos e não devemos carregar tudo em nossas mentes. Tal como uma casa precisa ser limpa e organizada, nós também. Esquecer é importante em certos momentos, mas entendendo que esquecer não implica em apagar da memória ou fingir que não existiu, porém requer que seja desapegado. Esquecer, portanto, é desapegar, não mais ficar envolvido.  

C. C.
C. |  Foto: iStock
 

Se determinadas situações que nos provocaram emoções aflitivas e difíceis não são lembradas elas não têm como ser esquecidas, ou seja, não podemos nos desapegar delas. Como poderíamos nos desapegar daquilo que não lembramos, mas que tentamos forçosamente fingir que nunca aconteceu?  

Rememorar pode trazer dor e isso é desconfortável, contudo ao lembrarmos da dor podemos então com tempo e paciência nos desapegar dela, deixa-la para trás caminhando em frente em nossas vidas. Todavia, se não lembramos da dor, se nos negamos a se dar conta dela, a dor continua existindo e jamais é abandonada, mesmo que não se pense propriamente nela.  

Há aquelas pessoas que vivem aparentemente sem lembrança alguma de suas dores e sofrimentos, mas suas vivências ficam comprometidas e manchadas por essas mesmas dores que não são lembradas e por isso mesmo não puderam ser esquecidas. Freud, criador da psicanálise, escreveu um artigo cujo título é “Recordar, repetir e elaborar” (1914). Nesse texto vemos que se não recordamos e se não vivenciamos novamente algumas dores dentro de nós não temos como elaborar o que nos machucou e ficaremos sempre presos. 

Nesse belo trabalho que nos permite ver como funcionamos em muitos aspectos, Freud afirmou que aquilo que não é permitido ser lembrado em nossas mentes continua existindo não como lembrança, mas como ação, ou seja, fica fadado à repetição sem nem mesmo perceber que está repetindo a dor que queria tanto se ver livre. Isso tudo é muito triste e até grave porque desenha um cenário desolador de repetições sem fim, sem lembranças e que trazem muitas angústias. Estar constantemente se repetindo, sem poder seguir adiante, é uma prisão amarga. 

No filme Imperdoável (2021) da Netflix algo aconteceu entre duas irmãs que não nos é inicialmente revelado às claras. Sabemos pouco do acontecido, só através de flashes sem muita nitidez, mas isso afeta muito em como a irmã mais nova vive a vida. Na época do acontecimento ela era muito pequena e não se lembra da situação que mudou sua vida completamente, mesmo assim, mesmo não tendo memória ela sente que algo continua a ‘atrapalhar’ a forma como ela se relaciona com a vida e com os outros. Havia algo que ela não sabia o quê que não tinha como ser elaborado e esquecido para ela então poder continuar em frente.  

Situações menos graves como esta descrita no filme mencionado acima acontecem em nossas vidas e pedem para serem lembradas para daí podermos esquecer. Quando algo é elaborado dentro de nós temos a chance de relegar então para o esquecimento aquilo tudo e se abrir às novas possibilidades que nos apresentam. 

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina 

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