A promessa de felicidade parece sempre estar lá fora. Acreditamos que a alegria plena será encontrada na próxima viagem, na aquisição de um bem desejado, na ascensão profissional ou no encontro com alguém que nos complete. Mas, uma vez alcançado o que tanto queríamos, surge um novo desejo, um novo objeto de busca, e a sensação de plenitude se dissolve rapidamente, deixando em seu lugar uma inquietação familiar.

É muito conhecida a natureza efêmera do prazer e a impossibilidade de uma satisfação contínua. Nossa mente se organiza a partir da falta, e é justamente essa falta que impulsiona nossos desejos e motiva nossa ação no mundo. No entanto, o problema surge quando acreditamos que essa falta pode ser definitivamente preenchida por algo externo. Procuramos incessantemente, mas usufruímos pouco. O que nos escapa é a constatação de que a alegria e a beleza que buscamos não são qualidades intrínsecas a objetos, pessoas ou circunstâncias, mas experiências subjetivas que dependem do nosso próprio modo de estar no mundo.

Podemos observar isso no fenômeno do consumo: adquirimos algo novo e sentimos uma excitação maravilhosa, mas logo aquilo perde seu brilho, e passamos a desejar outra coisa. O mesmo ocorre nas relações amorosas que se sustentam na idealização do outro como fonte de felicidade: mais cedo ou mais tarde, o encanto se dissipa e o sujeito se vê novamente insatisfeito, projetando suas expectativas em uma nova relação. Essa lógica do eterno porvir mantém a mente presa a uma promessa inalcançável, incapaz de se deleitar no presente.

Aprender a usufruir da vida requer um trabalho psíquico, um desenvolvimento interno que não se dá espontaneamente. Como dizia o psicanalista inglês Winnicott, viver não é algo dado, mas uma conquista. E essa conquista passa pelo reconhecimento de que a alegria genuína não está na posse de algo, na fama ou na aprovação dos outros, mas na capacidade de estar consigo mesmo, de sustentar a própria experiência emocional sem a necessidade de preenchimentos ilusórios. Isso não significa que o mundo externo não tenha seu valor, mas sim que ele só se torna verdadeiramente fonte de prazer quando a mente é capaz de acolhê-lo e significá-lo.

A psicanálise nos ensina que a vida psíquica não se sustenta apenas na busca por satisfação, mas também na capacidade de criar sentido para o que nos acontece. O problema não está na viagem em si, mas na ideia de que ela resolverá algo que, na verdade, precisa ser resolvido (elaborado) dentro de nós.

Assim como o prazer não está na comida em si, mas no paladar que sabe saboreá-la, a alegria não está nos acontecimentos da vida, mas na disponibilidade interna para vivê-los.

Não sabemos viver, mas podemos aprender. Não nascemos humanos, mas podemos aprender a ser humano, e isso exige um movimento de interiorização, um deslocamento do foco da busca externa para o cultivo da própria mente. Significa abrir espaço para o vazio que há dentro de nós, tolerar o tempo sem buscar preenchê-lo compulsivamente, permitir que a alegria emerja sem precisar fabricá-la artificialmente. Somente assim podemos trocar a lógica do desejo incessante pela experiência da verdadeira satisfação: aquela que não depende do que temos ou do que fazemos, mas da forma como somos capazes de estar no mundo. Fazer análise é uma chance de aprender a fazer isso.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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