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Londrina

Sylvio do Amaral Schreiner - Mundo Vivo

m de leitura Atualizado em 03/06/2022, 15:29

Se emparedar vira hospício

Se Nise da Silveira não foi reconhecida é porque a loucura daqueles que decidiram por excluir seu nome não conseguem vê-la como sua igual

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de junho de 2022

Sylvio do Amaral Schreiner
AUTOR autor do artigo

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Tem uma piada que diz que quando uma situação em um determinado lugar está crítica e difícil dizemos: “se cobrir vira circo, se emparedar vira hospício”. Pois bem, o Brasil e a decisão do atual governo está beirando à loucura solta e não é por menos, já que vetaram o nome da psiquiatra brasileira Nise da Silveira no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Segundo a justificativa o nome da brasileira representa uma contrariedade ao interesse público que deveria priorizar nomes de pessoas cujas ideias não representassem perigo ao estado democrático. Será que ao menos sabem quem foi Nise da Silveira?

Nise da Silveira foi uma psiquiatra numa época onde mulheres não eram incentivadas a estudar. Não só foi em frente e se formou em medicina como obteve título de psiquiatra e isso por si só, em sua época, já a colocaria na história. Porém, ela estava apenas começando e sua trajetória trouxe coisas importantes para o país e até mesmo para o mundo.

Ela revolucionou o tratamento dos ditos doentes mentais. Antes dela haviam hospícios tenebrosos onde se jogavam pessoas doentes e lá elas minguavam ficando cada vez mais adoecidas, sem nenhum tipo de ajuda eficaz. O tratamento era o temido eletrochoque e a tortura era diária. Uma instituição para doentes mentais naquela época era um dos lugares mais horripilantes que existia. Podemos, sem exagero, comparar a verdadeiro um inferno na Terra. Infelizmente alguns ainda permanecem assim.

Nise da Silveira foi uma das precursoras do movimento antimanicomial que prega contra o isolamento e a tortura dos doentes mentais. Eles deixam de ser uma coisa e passam a ser pacientes com direitos a serem tratados como tais. O tratamento torna-se mais humanizado com inclusões como a terapia ocupacional e o contato com animais. O paciente deixava de ser visto como um doente problema e passava a ser uma pessoa que poderia e deveria ser ajudada a se posicionar e se expressar no mundo. Muitos de seus pacientes produziram trabalhos artísticos admirados internacionalmente. A arte-terapia salvou e continua salvando muitas pessoas que estão sem esperanças. A terapia com animais permitiu também que muitos pacientes viessem a criar laços afetivos de grande importância. Na verdade, o resultado de seu trabalho é incomensurável. Até mesmo o famoso psiquiatra suíço Dr. Carl Gustav Jung reconheceu a grandeza dessa brasileira.

Triste é um país cujas pessoas que transformaram tanto a vida dos outros para melhor não são reconhecidas devidamente. O trabalho de Nise da Silveira extrapolou as fronteiras nacionais e inspirou movimentos internacionais para um tratamento mais humanizado daqueles pacientes que padecem de sofrimento mental. Uma pessoa assim deveria ser enaltecida e não deixada de lado. Mas talvez seja bom que ela tenha sido posta de lado, porque isso prova que, como diz um ditado, um louco reconhece outro louco, ou seja, se ela não foi reconhecida é porque a loucura daqueles que decidiram por excluir seu nome não conseguem vê-la como sua igual. Realmente, se murar vira hospício, mas não vamos perder as esperanças. Nise da Silveira teria um tratamento humanizado mesmo para eles.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina 

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