Sanidade mental é um daqueles termos que, de tão amplamente utilizados, correm o risco de perder a espessura de seu verdadeiro significado. Com frequência, ela é evocada como sinônimo de equilíbrio, normalidade, bom senso, ou até mesmo como um atributo que se tem ou não se tem, como se fosse um objeto estático, uma posse duradoura. No entanto, sob a ótica da psicanálise, é preciso afirmar com clareza: sanidade mental não é um estado fixo, tampouco uma garantia conquistada de uma vez por todas. Trata-se, antes, de uma condição psíquica que se constrói e reconstrói continuamente, ao longo da vida e das experiências emocionais que a constituem.

Freud, já em seus primeiros escritos, demonstrava como o sujeito humano é atravessado por forças pulsionais que podem tanto favorecer a ligação, o amor e a criação, quanto a destruição, o ódio e a repetição do traumático. Viver, do ponto de vista psíquico, é lidar com esse campo de tensões — nem sempre facilmente simbolizáveis — que nos desafiam a encontrar formas de expressão, sublimação e elaboração. O que se convencionou chamar de "sanidade" não é a ausência de conflito, mas a capacidade de vivê-lo sem sucumbir ao caos interno.

Winnicott, em sua sensível escuta das angústias primordiais do bebê, ampliou essa concepção ao mostrar que a saúde mental se constitui a partir de experiências suficientemente boas de cuidado e acolhimento. O ambiente facilitador não é aquele que evita todo sofrimento, mas aquele que permite que a dor seja vivida, metabolizada, transformada. Sanidade, nesse contexto, é a possibilidade de suportar a própria existência com seus limites, perdas e frustrações, sem que isso leve à fragmentação psíquica ou ao colapso da capacidade de pensar.

A sociedade contemporânea, com seus imperativos de performance, produtividade e idealizações narcísicas de felicidade constante, dificulta ainda mais esse trabalho de sustentação da saúde mental. Há uma enorme pressão para parecer bem, funcional, adequado — o que frequentemente encobre processos subjetivos intensos de sofrimento, angústia ou vazio. A ausência de espaço para o mal-estar gera um tipo de solidão psíquica: não se pode adoecer, não se pode falhar, não se pode duvidar.

Por isso, perder a sanidade mental não é um evento súbito e isolado, mas, muitas vezes, o resultado de um processo de desinvestimento da própria vida psíquica. Quando o sujeito não encontra mais condições internas e externas para sustentar o pensamento, para manter o laço com a realidade simbólica, para confiar minimamente na continuidade do ser, instala-se o risco de desorganização, colapso ou retraimento extremo. Nesses momentos, o custo subjetivo é imenso: perde-se a linguagem, o tempo, o outro. Perde-se, em certa medida, a si mesmo.

A clínica psicanalítica ensina, diariamente, que preservar ou recuperar a sanidade mental é um trabalho minucioso e delicado. Não se trata de devolver ao paciente uma suposta normalidade, mas de ajudá-lo a construir um espaço interno habitável, onde as experiências possam ser pensadas, sentidas e transformadas. É um trabalho artesanal, feito de escuta, vínculo, simbolização e tempo. Um trabalho que exige cuidado contínuo — consigo, com o outro e com o mundo interno.

Assim, é fundamental que compreendamos a saúde mental não como um objeto, mas como uma conquista subjetiva, sempre em processo. Exige-se, para sustentá-la, um compromisso ético com a própria verdade, uma disposição a se deixar afetar e uma abertura ao desconhecido que nos habita. A sanidade, nesse sentido, é menos um ponto de chegada do que uma travessia. E é justamente porque ela pode se perder que precisamos cuidar dela, todos os dias, com o mesmo zelo com que se cuida de algo profundamente precioso.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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