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Londrina

Sylvio do Amaral Schreiner - Mundo Vivo

m de leitura Atualizado em 25/03/2022, 16:58

Querer ser importante

O narcisismo, que é esse desejo louco por ser importante, faz com que se crie, entre os indivíduos, atos sádicos e submissões masoquistas

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de março de 2022

Sylvio do Amaral Schreiner
AUTOR autor do artigo

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Todo começo de ano sempre corre notícias da violência dos trotes sobre os novos alunos universitários, principalmente em cursos muito concorridos como medicina e outros. Esses dois últimos anos devido à pandemia as aglomerações não foram muito incentivadas, mas agora que se começa a voltar a juntar os grupos tivemos notícias tristes de alunos submetidos aos mais humilhantes trotes por seus colegas veteranos. O que será que está por detrás desses atos tão irracionais entre jovens que supostamente deveriam prezar pela razão e que podem acabar mal e em alguns casos até ser fatal? Eu penso que uma das possíveis explicações pode ser encontrada no narcisismo.

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. |  Foto: iStock
 

Ao contrário do que muitos imaginam o narcisismo não se trata de auto amor, de alguém que gosta muito de si, mas se trata de alguém que quer ser importante, seja para outro alguém, para um grupo, para uma posição social, etc. O desejo por ser importante ou até maior ou melhor que os outros pode ser adoecedor e enlouquecedor. Isso mobiliza nas pessoas impulsos muito fortes que a fazem perder a razão e agir de maneira intempestiva se colocando em risco. Aliás, o desejo por se ser importante vem trazendo toda uma séria de situações muito preocupantes e destrutivas.

Para ser aceito e pertencer a um determinado grupo muitas pessoas se submetem às mais atrozes situações. No caso de se ser um aluno de medicina isso é algo que promove certo status e os veteranos que já foram aceitos criam as mais variadas injúrias para que alguém seja permitido participar de seus grupos fechados e altamente valorizados. O narcisismo, que é esse desejo louco por ser importante, faz com que se crie, entre os indivíduos, atos sádicos e submissões masoquistas.

O documentário norte-americano The Gift (2003) mostra jovens da cidade de São Francisco engajados em atos sexuais sem preservativos com o objetivo de contraírem o vírus HIV. Eles acreditavam que infectados poderiam então fazer parte dos grupos homossexuais altamente organizados e que promoviam festas badaladas intensamente desejadas, mas quem não era infectado era excluído. Muitos desses jovens que se infectaram para entrar nos grupos que desejavam morreram mortes muito sofridas e desnecessárias. Querer ser alguém que seja aceito naquilo que idealizamos insanamente faz com que muitos cometam as mais selvagens atitudes sem pensar no que estão fazendo.

Por isso que o narcisismo não se trata de uma pessoa que se ama, mas de alguém que quer ser notável. Quem se ama se dá importância e não se coloca em risco, porém quem quer ser superior ou coisa assim não cuida de si próprio verdadeiramente porque o que importa é a idealização daquilo que tem reputação. É comum que muitos jovens, por exemplo, desejem fazer parte de gangues que são vistas como muito poderosas e para isso se colocam sob desafios os mais crueis e aviltantes possíveis. Nos relacionamentos dentro das empresas e relacionamentos amorosos também ocorrem coisas similares. Muitos se submetem às mais terríveis provações só para se mostrarem dignos. O problema é que isso não traz dignidade, traz apenas destruição.

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