Quando nos deixamos enganar

Quando queremos que alguém nos realize um milagre nos colocamos numa posição de dependência e submissão nas mãos de muita gente má intencionada, que alega ter tal poder

A história de João de Deus, por alguns reconhecido como médium, deixa muita gente intrigada para entender como ele conseguiu enganar e manipular tantas pessoas sendo muitas delas até mesmo inteligentes. Como se sabe, João de Deus abusou de várias mulheres enquanto fingia estar oferecendo um “tratamento” espiritual. Muitas mulheres abusadas até acreditavam que os abusos eram partes do tratamento e, por isso, se submetiam ao sadismo do dito médium. Entretanto, outras mulheres resolveram romper com a loucura a que foram sujeitas e o denunciaram causando todo um alvoroço policial e jurídico. A pergunta que fica é: como um homem desse conseguiu manter abusos por tanto tempo antes disso ser percebido de fato?

 

Quando nos deixamos enganar
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Há uma expressão que diz “O golpe tá aí, cai quem quer...”. Há vários golpes mundo afora e muito deles são bastante simplórios, mas eficientes porque há muitas pessoas que querem acreditar que as promessas dos golpes sejam reais. Esse é o grande e maior problema: quando há gente que quer cair nos golpes. Claro que ninguém quer cair conscientemente, mas se comporta de maneira que abre todas as possibilidades para cair em golpes manjados.


Quando alguém quer cair num golpe não há o que se fazer, a não ser que a pessoa uma hora resolva abrir os olhos. Quando algumas mulheres que sofreram abusos do médium viram o que estava se passando de fato elas mudaram e não mais aceitaram o golpe. Só quando nos permitimos ver é que não caímos mais no golpe. Qual era o golpe de João de Deus? Ele as enganava se dizendo muito poderoso e curava muitos males, o que só funcionava porque existiam e existem pessoas que querem, desesperadamente, acreditar numa figura todo poderosa que resolva a vida delas.


Obviamente havia pessoas muito vulneráveis, desenganadas pela medicina tradicional ou tomadas por uma carga de angústia muito intensa que as deixavam enfraquecidas e, por isso mesmo, submetidas a alguma promessa de milagre. Quando queremos que alguém nos realize um milagre nos colocamos numa posição de dependência e submissão nas mãos de muita gente má intencionada, que alega ter tal poder. Todo golpe se inicia com uma promessa, uma falsa promessa, e se alguém quer acreditar que a falsa promessa é real fica então sujeito ao engano.


Ao nos enganar nós fechamos os olhos para a realidade e cortamos fora tudo aquilo que contradiga o que queremos. Isso acontece com mais frequência do que imaginamos. Sabe aquelas pessoas que repetidamente caem no engodo de seus parceiros, amigos e conhecidos e parece que nunca aprendem? Caem porque não querem ver a realidade.


Don Juan, médiuns milagrosos, parceiros idealizados, negócios perfeitos, não existem. Só caímos nesses golpes porque queremos acreditar que existam. Queremos que alguém fora de nós mesmos nos ofereça uma vida cheia de promessas irreais. Quando acordamos, quando abrimos os olhos, não temos mais como negar a realidade. Não dá para negar o que está na nossa frente. É o fim da ilusão, mas isso é bom, pois pode nos dar a chance de lidar com a realidade de fato.



A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina 



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