Quando ficamos achatados e chatos
Se negamos nossa mente e suas inúmeras facetas a gente impõe uma violência sobre nós mesmos, nos reduzimos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
Se negamos nossa mente e suas inúmeras facetas a gente impõe uma violência sobre nós mesmos, nos reduzimos
Sylvio do Amaral Schreiner 

Somos multifacetados, ou seja, temos vários lados. Cada lado são partes e peculiaridades de nossa mente que forma nossas personalidades. Nunca somos o mesmo em todo o tempo. Vamos mudando tal como a vida sempre muda. Em cada fase de nossa vida, em cada experiência que vivemos, em cada impacto que sofremos novos e desconhecidos lados podem surgir e nos fazer conhecer o que nem suspeitávamos em nós mesmos.
Entrar em contato com tantas facetas dentro de nós pode ser assustador. Isso faz com que tenhamos muito mais trabalho para pensar e lidar com nossos mais variados e diferentes lados. Eles trazem contradições que não gostamos e nem suportamos. Por exemplo, podemos amar e odiar uma mesma pessoa ao mesmo tempo. Contudo, temos a tendência de achar que se amamos alguém não há espaço para o ódio e vice-versa, como se essas emoções não pudessem coexistir.
As emoções não funcionam como matéria e antimatéria em que uma tem natureza inversa da outra, se anulando. Por mais contraditórias que as emoções possam ser, por mais opostas que se apresentam, elas podem conviver juntas sem o menor problema. As leis da física não se aplicam ao mundo mental que conta com outras leis.
Se queremos entender e lidar com a natureza do mundo externo de maneira favorável e inteligente precisamos conhecer as leis naturais. Assim, do mesmo jeito, se quisermos desenvolver com nossa mente uma relação mais promissora precisamos aprender sobre as suas leis e natureza.
Há pessoas que acreditam que podem moldar a mente como se ela fosse uma massinha de modelar. Claro que podemos mudar muitas coisas, mas sempre respeitando a sua natureza. Na verdade, nós não temos a menor chance de mudar a natureza da mente, mas quando aprendemos a lidar com essa natureza podemos usufruir da mente mais apropriadamente. Assim como ninguém muda as leis da física para fazer um avião voar, mas se valendo das mesmas leis físicas podemos encontrar meios de um avião, que pesa toneladas, alçar voo. Com a mente se dá algo parecido quando a conhecemos melhor.
Se negamos nossa mente e suas inúmeras facetas a gente impõe uma violência sobre nós mesmos, nos reduzimos. Ficamos ‘quadrados’ sem poder acessar pontos de vistas diferentes e que poderiam ampliar nossa visão de mundo e da vida. Ao nos limitar, ao negar nossos lados nos relacionamos com o mundo e com a vida de uma maneira muito restrita e nos tornamos ineficientes em viver. Podemos até dizer que ficamos empobrecidos porque onde poderia haver fartura de lados e facetas, onde poderia haver expansão e criação de novos olhares e pensares, fica algo muito restringido. Até os relacionamentos amorosos e sociais ficariam cerceados e parcos.
É mais fácil ter que lidar com menos lados dentro de nós, seria muito mais cômodo. Há pessoas que fazem isso com suas vidas. Se limitam porque não teriam tantas demandas desse jeito, mas não percebem que podam suas possibilidades. O mundo para elas fica plano e achatado e não conquistam outras perspectivas que permitiriam ver o mundo de outra forma.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina
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