Meu primeiro contato com a psicanálise se deu comigo ainda adolescente e foi transformador. Posso dizer que foi importante não apenas porque depois fui seguir essa profissão, mas principalmente porque passar por um tratamento psicoterapêutico foi vital para minha vida. Talvez, se eu não tivesse passado por uma psicoterapia de base psicanalítica na época eu nem estaria vivo hoje para contar história.

A adolescência, período conturbado e de imensa vulnerabilidade para qualquer um, foi terrível para mim. Eu só pensava em suicídio. Costumo dizer que não se tratava nem se eu iria me matar, mas quando eu iria me matar. Tinha certeza que era somente uma questão de mais ou menos tempo. Fui levado pelos meus pais a fazer uma psicoterapia e lá nesse espaço descobri que alguma coisa acontecia. Não sabia explicar o quê, porém algo começou a se passar de forma diferente dentro de mim que foi me permitindo lidar melhor com a minha intensa angústia.

Imagem ilustrativa da imagem Quando eu não queria viver...
| Foto: iStock

Hoje entendo que eu não queria me matar de fato, não queria morrer, mas não sabia como viver, não fazia ideia de como tolerar e cuidar do que eu sentia dentro de mim. Sem um mínimo de saúde mental a vida se torna assustadora além da conta e intolerável. No processo psicoterapêutico comecei a perceber que era possível desenvolver recursos internos que me possibilitasse a enfrentar a vida com mais propriedade, sem tantos sofrimentos desnecessários.

Leia na coluna Mundo Vivo:

- Onde encontramos abrigo nessa vida dura?

Ao descobrir isso apaixonei-me por essa profissão que me permitia estar com outras pessoas que também sofriam em demasia e perdiam muito da vida. Fui cada vez mais me aproximando da psicanálise que é um saber incrível para nos ajudar a criar recursos que nos fortaleçam. A psicanálise é como uma “vacina mental” que nos dá a chance de criarmos resistência para viver a vida com mais dignidade já que nos coloca responsáveis frente às nossas escolhas.

Assim como o corpo físico precisa de anticorpos para lidar com todos os perigos que o mundo nos traz, tais como vírus e bactérias nocivos, nossa mente também precisa de algo que funcione tais como anticorpos e nos abrigue das emoções violentas que podem despertar dentro de nós e nos massacrar. A mente quando não desenvolvida pode trabalhar contra nós e não a nosso favor, nos faz meter os pés pelas mãos e a entrar em situações muito prejudiciais. Quem não desenvolve meios para lidar com a própria mente é drasticamente engolido por ela.

É certamente possível que ao passar por uma análise possamos aproveitar mais da vida, nos desapegar do que realmente não importa e aprender a suportar as frustrações com menos abalo. Em outras palavras, podemos aprender a ser mais humanos e a lidar melhor com essa humanidade. Quando mudamos dentro de nós, como vemos o mundo e como nos relacionamos com ele, transformamos tudo. O que a psicanálise tem a oferecer é algo extremamente necessário para esse mundo. Através dela podemos aprender a viver com muito mais excelência e verdadeiramente.

Sylvio Schreiner escreve às segundas-feiras para a coluna Mundo Vivo!

A opinião do colunista não representa, necessariamente, a opinião da FOLHA!

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