A psicanálise costuma ser entendida como um processo que se estende por um longo período na vida de um paciente e, em muitos casos, parece não ter um ponto final definido. Quando podemos dizer que uma análise psicanalítica chegou ao seu término? Existe um momento em que podemos afirmar que o paciente está curado? É apropriado usar o termo "cura" na psicanálise? Essas são questões complexas que permeiam a mente e alimentam as dúvidas de muitas pessoas quando olham para a psicanálise.

Podemos refletir não apenas sobre o fim do processo analítico, mas também sobre os desafios do desligamento entre o analista e o paciente. Um paciente que encontra dificuldade em se desvincular do analista pode não ter ainda desenvolvido um recurso interno que o habilite a exercer a função analítica por conta própria de maneira independente. Podemos, então, enxergar a análise como um processo de aprendizado (mas bem diferente de um processo pedagógico), no qual o paciente internaliza a função analítica, como uma tentativa de conviver e lidar de maneira o mais eficiente possível com seus aspectos mentais que incluem aspectos infantis e primitivos, geradores de angústias. Se essa função analítica não é minimamente estruturada dentro do paciente a sua dependência em relação ao outro torna-se imensa e o paciente buscará nos outros, dentro de suas relações afetivas e até profissionais, respostas e certezas para as suas carências que não conseguem suportar. Buscará também um analista idealizado, poderoso, cheio de certezas e quase deificado. Quando isso ocorre, entretanto, o paciente fica sempre na dependência do analista e fica sempre identificado com uma posição infantil. Nunca pode se expandir e aprender a cuidar de si mesmo. Há profissionais que por muita falta da própria análise pessoal estimulam a dependência de seus pacientes que nunca o largam. A função de um psicanalista é idêntica a função da mãe e do pai na vida dos filhos: tornar-se desnecessário.

Quando tudo vai bem na relação entre pais e filhos estes se desenvolvem e não precisam mais dos pais. Não quer dizer que não haverá mais entre eles uma relação, mas mudará a natureza da relação. Ao invés da dependência haverá afetos, amor e gratidão que tornam a relação mais madura. Os pais tiveram sucesso com seus filhos quando eles batem asas e voam sozinhos, contando com seus recursos internos para lidar com a vida. Numa análise, o paciente também tem a chance de internalizar dentro de si a função analítica que o permita lidar com sua vida de maneira menos custosa e mais proveitosa.

Uma análise “dá certo” quando se avalia como o paciente se relaciona com sua vida mental, reconhecendo que há limitações nesse processo, pois não se espera que o paciente saia da análise "curado" sem nenhum tipo de sofrimento. Isso não é o objetivo de uma análise. O propósito da análise é auxiliar o paciente a desenvolver uma compreensão mais profunda de seu mundo interior, de seu universo psíquico. Nesse sentido, a análise é um processo contínuo, sem um término definitivo. O que pode, eventualmente, chegar ao fim é a relação entre analista e paciente. O processo analítico encerraria quando analista e paciente não mais se encontrassem para as sessões de análise. A análise geralmente se conclui quando o paciente está emocionalmente mais preparado para encarar a vida sem precisar adoecer. Esse tempo de ‘amadurecimento’ depende de pessoa para pessoa e é um dos aspectos que determina a duração da análise. Para cada processo analítico haverá um momento certo, mas não datado, não preestabelecido, que dependerá da história de cada um, para se saber se as sessões podem ser suspensas.

¨¨¨¨

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina