Jim Carrey, ator conhecido tanto por sua comédia quanto por sua complexidade existencial, certa vez afirmou: "Espero que todos possam um dia ser ricos, famosos e ter tudo o que sempre sonharam, para que descubram que isso não é a resposta." Essa frase, de aparência simples, carrega algo profundo para avaliarmos. Ressoa até concepções milenares de várias religiões e filosofias, em que se afirma que a realização de todos os desejos externos, por mais fantásticos que sejam, ainda assim não seria capaz de aplacar o vazio existencial que acompanha o humano em sua condição mais fundamental: o seu ser.

Na escuta psicanalítica, frequentemente nos deparamos com indivíduos que, ao atingirem objetivos socialmente desejáveis (sucesso profissional, estabilidade financeira, fama, prestígio) são surpreendidos por uma sensação de desamparo ou falta de sentido. A euforia da conquista cede lugar a um sentimento estranho de vazio que aparentemente não teria motivo para existir. O que antes parecia meta se revela como miragem. Não se trata, portanto, da insuficiência do mundo, mas da insuficiência do mundo para preencher aquilo que é, essencialmente, da ordem do interno, do simbólico, do ser.

O sofrimento humano não decorre apenas da escassez externa, mas também de um conflito interno que habita o sujeito desde sempre. Mesmo quando a realidade parece nos trazer gratificações, oferecendo-nos abundância, sucesso e reconhecimento, o sujeito se vê diante de um impasse: “é só isso?”

Bion, grande psicanalista, fala da importância de tolerar a frustração, isto é, de não preencher imediatamente o vazio com objetos, relações ou conquistas, mas sim permanecer nele o suficiente para que possa se converter em pensamento, em simbolização e em algo mais satisfatório. O desenvolvimento emocional, nesse sentido, não se dá por adição de bens ou experiências, mas pela capacidade de sonhar, de elaborar perdas, de transformar angústias em sentido. Esse processo exige um espaço psíquico, um continente interno que possa conter a experiência emocional. E esse continente não se constrói com fama ou dinheiro, mas com relações suficientemente boas, com presença emocional e com a possibilidade de falar e ser escutado verdadeiramente.

É evidente que um ambiente de extrema privação, de miséria material e afetiva, pode inviabilizar esse processo. A sobrevivência psíquica exige um mínimo de sustentação externa. Mas é igualmente verdadeiro que um ambiente de fartura pode funcionar como anestesia, como um ruído que encobre o silêncio necessário à escuta de si. Tanto a miséria quanto o excesso podem ser obstáculos ao desenvolvimento mental quando não se articulam com uma vida simbólica rica e pulsante.

A psicanálise não desvaloriza as conquistas do mundo externo, mas questiona sua capacidade de responder às questões do ser. O sujeito não encontra realização ao acumular, mas ao ser. Não se trata de possuir o que se deseja, mas de conhecer o que se deseja e, sobretudo, de poder transformar o desejo em subjetividade. Só assim, talvez, o sujeito possa escapar da prisão das repetições estéreis e caminhar em direção a uma vida mais autêntica, não isenta de sofrimento, mas, ao menos, não enganada por promessas de completude que o mundo jamais poderá cumprir.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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