Psicanálise não se trata de falar para desabafar
Dar palavra ao que nos habita é uma maneira de dar forma àquilo que, antes, existia de maneira bruta e caótica
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segunda-feira, 12 de maio de 2025
Dar palavra ao que nos habita é uma maneira de dar forma àquilo que, antes, existia de maneira bruta e caótica
Sylvio do Amaral Schreiner 

É frequente, em nosso ofício clínico, depararmo-nos com sujeitos que carregam, dentro de si, uma verdadeira multidão de sentimentos — raiva, tristeza, medo, vergonha, desejo, culpa, amor — todos densos, vivos, pulsantes, mas que não encontram passagem para o mundo externo. Ficam retidos, como se estivessem enclausurados em um território interno sem tradução, circulando silenciosamente, porém com grande consequência na vida diária. Essa retenção pode, com o tempo, converter-se em sintomas — desde dores físicas e crises de ansiedade até formas mais sutis de empobrecimento emocional ou de desconexão com o viver.
A palavra, na experiência psicanalítica, não é apenas um meio de comunicação, mas um verdadeiro ato de criação psíquica. Quando nomeamos aquilo que sentimos, não apenas informamos ao outro: nos transformamos a nós mesmos. Dar palavra ao que nos habita é uma maneira de dar forma àquilo que, antes, existia de maneira bruta e caótica. Falar é, portanto, um gesto que organiza, que põe contorno, que desenha limites para o que antes era apenas um turbilhão difuso.
Freud, ao desenvolver a psicanálise, mostrou-nos que a fala é, por excelência, o instrumento do inconsciente para se manifestar e para se transformar. O sofrimento não escutado e não simbolizado tende a se fixar, a endurecer-se em forma de repetição ou sintoma. Por isso, é tão comum ouvirmos pessoas dizerem que “não sabem o que estão sentindo” — não porque não sintam, mas porque não encontraram ainda as palavras para acolher e representar a experiência interna.
No espaço da análise, o que se busca não é apenas falar por falar. É a construção de uma escuta que autorize o sujeito a se dizer com verdade. Muitas vezes, é preciso tempo até que a fala venha, até que a dor ganhe nome, até que a emoção se reconheça em linguagem. Mas quando isso acontece, algo de profundamente vital se inaugura: o sofrimento, ao ser simbolizado, pode ser reintegrado à história do sujeito e, assim, transformado. O que antes era apenas peso ou angústia indizível torna-se conteúdo pensável e, portanto, passível de elaboração.
Silenciar-se por medo, vergonha ou por hábito pode ser, em certas circunstâncias, compreensível — mas não é inofensivo. Aquilo que não se diz pode adoecer o corpo, empobrecer o espírito e mumificar o afeto. A vida psíquica precisa de circulação, e é na palavra que muitas vezes encontramos a ponte entre o caos interno e a possibilidade de reinvenção.
A psicanálise aposta na fala como via de libertação, não no sentido simplista de “falar para desabafar”, mas como forma de escuta profunda de si, de encontro com o próprio desejo e de construção de novos sentidos. Falar, nesse contexto, é existir de forma mais íntegra, é criar laços com a própria história, é poder, enfim, viver com maior autenticidade.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


