A ascensão dos sistemas de inteligência artificial como substitutos em interações que tradicionalmente exigiam contato humano – como o aconselhamento ou até mesmo o suporte emocional – lança luz sobre questões fundamentais do ser humano e de seu funcionamento psíquico. A utilização dessas ferramentas como "terapeutas" evidencia não apenas o avanço da tecnologia, mas também as transformações culturais e psíquicas de uma sociedade que busca, de forma cada vez mais frenética, alívio imediato para suas angústias.

No cerne da experiência psicanalítica está o encontro humano, o diálogo vivo entre duas mentes. A psicanálise, diferentemente de sistemas como o ChatGPT, não se baseia em respostas pré-formatadas ou na organização de dados preexistentes. Ela opera na esfera do singular e do indizível, lidando com o que não pode ser completamente capturado em palavras ou estatísticas. Como Winnicott aponta, o desenvolvimento psíquico depende de um ambiente suficientemente bom, um espaço em que as interações emocionais possibilitam a integração e a transformação do sofrimento em pensamento. A IA, por mais sofisticada que seja, carece dessa dimensão afetiva, essencial para a construção de significados genuínos.

O ChatGPT, com sua capacidade de responder rapidamente a perguntas e oferecer conselhos genéricos, reforça a tendência contemporânea de evitar o confronto com o desconhecido e o incômodo. Porém, a busca incessante por alívio imediato elimina a possibilidade de catarse e aprendizado que o enfrentamento da dor proporciona. Ao silenciar o desconforto, anula-se também a oportunidade de transformação.

A comparação entre o ChatGPT e a prática psicanalítica evidencia uma diferença crucial: a experiência emocional. Enquanto a interação com um analista exige que o paciente tolere a frustração, o tempo e a incerteza, as respostas de uma IA oferecem uma ilusão de segurança e controle. O ChatGPT não interpela, não se surpreende, não devolve ao usuário o que ele não quer ouvir. Ele opera dentro dos limites do previsível, enquanto a psicanálise trabalha para expandir as fronteiras do possível, iluminando o que está reprimido, oculto ou ainda não pensado.

Essa diferença não é apenas técnica, mas estrutural. A psicanálise não fornece respostas prontas; ela cria espaço para perguntas, para a dúvida, para o confronto com o não saber. Pensar, no sentido psicanalítico, é um processo que envolve suportar a dor da frustração e da perda da onipotência. A inteligência artificial, por sua vez, ao oferecer respostas baseadas em padrões, não enfrenta essas questões, mas as contorna.

A questão do lugar do humano em um mundo dominado por algoritmos é também uma questão psíquica e ética. O perigo de uma nova Idade das Trevas, marcada não pela ignorância, mas pela supressão do pensamento criativo e crítico, não está na tecnologia em si, mas na forma como nos relacionamos com ela. A substituição de relações humanas por interações mediadas por máquinas é sintoma de uma sociedade que teme a vulnerabilidade e que busca, a todo custo, evitar o contato com a realidade interna e externa.

A psicanálise tem um papel crucial nesse contexto. Ela nos ensina que o pensamento não surge da acumulação de informações, mas do trabalho sobre as emoções, do enfrentamento das angústias e da aceitação do não saber. Nesse sentido, a prática psicanalítica oferece uma alternativa ao imediatismo da IA: um espaço em que a criatividade, a singularidade e o encontro humano podem florescer.

Em um mundo que parece seduzido pelas respostas rápidas e pela ilusão de controle oferecida pelos algoritmos, a psicanálise nos lembra da importância de permanecer em contato com nossa humanidade – com nossas dúvidas, nossas angústias e nossa capacidade de criar sentido a partir do caos. Se há uma luz que pode nos guiar neste momento de transição, ela não é a luz fria e uniforme das máquinas, mas a chama vacilante e viva do pensamento humano.

Sylvio do Amaral Schreiner é psicanalista e atende há mais de 20 anos em Londrina. [email protected]

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