Para crescer é preciso se aprofundar
Tocar o céu não é um objetivo distante, mas uma jornada ao interior de nós mesmos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de novembro de 2024
Tocar o céu não é um objetivo distante, mas uma jornada ao interior de nós mesmos
Sylvio do Amaral Schreiner 

Nietzsche escreveu: "se uma árvore deseja tocar o céu, então terá de mandar as suas raízes para o inferno", oferece-nos uma bela metáfora que ressoa profundamente com a concepção psicanalítica do processo de crescimento e transformação psíquica. A árvore, com sua ambição de expansão em direção ao céu, representa o impulso vital humano de buscar alturas, de transcender, de criar. No entanto, o que talvez mais importe nessa imagem é a relação entre altura e profundidade, a interdependência entre os extremos, indicando que tocar o "céu" demanda, paradoxalmente, a coragem de ancorar-se nas camadas mais escuras e ocultas do próprio ser (as raízes).
A psicanálise reconhece que o desejo de se expandir exige uma imersão nas raízes do inconsciente — o "inferno" do qual Nietzsche fala, espaço onde habitam impulsos primitivos, conteúdos reprimidos e memórias traumáticas. Essas raízes, fundadas nos conflitos primordiais, nas ambivalências entre amor e ódio, desejo e culpa, e nas marcas da infância, constituem a base de sustentação de qualquer possibilidade de desenvolvimento psíquico. É impossível alcançar uma identidade e um self autêntico sem o reconhecimento desses aspectos sombrios, onde habitam partes de nós que preferimos ignorar, ocultar ou transformar em sintomas.
Quando o analista convida o analisando a adentrar nessas profundezas, é para promover uma integração psíquica, uma reconciliação com aspectos negados. Descer ao "inferno" psíquico, nesse sentido, é um processo que exige não apenas coragem, mas também uma disposição para aceitar o sofrimento e a complexidade da vida. Essa experiência é como um ato de "digerir" experiências emocionais, um processo árduo e essencial para o desenvolvimento da mente. Sem isso, corre-se o risco de uma existência superficial, desprovida de profundidade, de significado e de crescimento real.
Nietzsche, ao apontar para o paradoxo entre céu e inferno, nos leva também a refletir sobre o conceito de sublimação, que se configura como a transformação dos impulsos primários em expressões mais elevadas, em produções que alimentam a vida em sociedade e a cultura. Essa sublimação, porém, só se torna possível se o indivíduo puder tocar as profundezas de seu próprio ser. Como as raízes de uma árvore que rompem a terra e encontram resistência nas rochas e nos minerais, o eu que se transforma na análise encontra seus próprios obstáculos internos, suas defesas e traumas, e, ao trabalhar com eles, ganha força e solidez para expandir-se.
Assim, o percurso da análise revela que tocar o céu não é um ato de transcendência que ignora as raízes que habitam partes escuras, mas, ao contrário, um movimento de aceitação e incorporação da própria escuridão. Expandir-se, portanto, é um ato de reconciliação com o desconhecido em nós, um processo de tornar-se inteiro, de viver em profundidade, em um equilíbrio entre céu e inferno, entre razão e paixão, entre luz e sombra. No final das contas, como sugere Nietzsche, tocar o céu não é um objetivo distante, mas uma jornada ao interior de nós mesmos, onde as raízes se confundem com o solo e nos ancoram à terra, permitindo que alcemos vôos seguros em direção ao desconhecido.


