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Londrina

Sylvio do Amaral Schreiner - Mundo Vivo

m de leitura Atualizado em 25/07/2022, 02:44

O que importa é o que não sabemos

Quanto mais internamente voltamos o nosso olhar, mais mistérios vamos nos deparando dentro de nós

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de julho de 2022

Sylvio do Amaral Schreiner
AUTOR autor do artigo

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A escritora Clarice Lispector disse “Com todo o perdão da palavra, eu sou um mistério para mim”. Que corajosa! Quando admitimos que somos um mistério para nós mesmos, quando nos damos conta que não somos assim tão donos do que se passa em nosso interior temos como aprender, e com isso, crescer. Uma das piores atitudes que alguém pode ter consigo próprio é achar que já sabe tudo sobre si e acreditar que não há o que descobrir em si mesmo.

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. |  Foto: iStock
 

A pessoa que se vale da arrogância, por exemplo, acredita que sabe tudo o que há para saber sobre si própria. Ela até pode saber bastante coisas sobre assuntos externos dos mais variados tipos, mas é uma completa ignorante de si mesma. Desconhece o que a move, o que necessita, o que pode e o que não pode, etc. Sobrevive, mas não vive e desperdiça vida. Isso ocorre porque o mistério incomoda, sempre nos conduz em direção ao desconhecido, a tudo aquilo que não sabemos, não entendemos e não temos referência. Há pessoas que tentam não olhar para aquilo que desconhecem e assim se limitam.

A tecnologia que hoje dispomos que permite até mandar telescópios para a vastidão do espaço sideral a fim de colher informações que nos ajudem a expandir a ciência só foi possível ser desenvolvida por ousarmos caminhar em direção ao desconhecido. Assim se faz ciência: procurar entender algo que desconhecemos. Ninguém faz ciência fechando os olhos e fingindo que sabe tudo, mas é justamente admitindo que não sabe.

Aquilo que não se sabe pode ser pesquisado, pode vir a ser conhecido. O cientista, os pesquisadores, são antes de tudo, ignorantes que percebem sua ignorância e vão atrás de saber alguma coisa. Vão atrás de descobrir (tirar a coberta) daquilo que estava acobertado e por isso mesmo não sendo visto.

Se alguém descobre as coisas na área da ciência, tecnologia, começa a ver e a procurar entender aquilo que antes não se fazia a menor ideia. A consequência é que com isso há uma expansão. O universo torna-se maior e surgem muito mais mistérios a ser compreendidos. A evolução cientifica pode cada vez mais crescer. Só que enquanto a ciência está voltada para o externo e o mundo material precisamos também, cada vez mais, de uma ciência voltada para o interior, para a nossa vida mental.

Aí que entra saberes tais como a psicanálise. Quanto mais internamente voltamos o nosso olhar, mais mistérios vamos nos deparando dentro de nós. Admitir isso de que somos um mistério é fundamental para que começamos a nos mover em direção a tudo o que não sabemos e que faz parte de nós. Podemos assim descobrir (tirar a coberta) aquilo tudo que nos estava escondido sobre nossa natureza, pensamentos, desejos, etc. E quanto mais sabemos sobre nós, mais podemos lidar com o que somos.

Estar em análise é isso: tolerar o próprio mistério para que muitas coisas possam ser conhecidas. Não que vamos desvendar todos os mistérios. Aliás, muito deles nem mesmo chegaremos perto de compreender, entretanto se podemos suportá-los poderemos ir nos expandindo e alargando todo esse universo que existe dentro de nós. Uma jornada muito interessante e necessária.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina 

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