A passagem do ano, celebrada em rituais que envolvem fogos de artifício, abraços e desejos de um novo começo, carrega em si um profundo potencial simbólico, evocando a capacidade humana de criar marcos para transformar e ressignificar a existência. Esse momento, que poderia ser visto como uma convenção arbitrária do calendário, adquire nas nossas mentes um significado emocional poderoso: a promessa de renovação, a esperança de dias melhores, o desejo de deixar para trás o que nos pesa e abraçar possibilidades de crescimento e realização.

A psicanálise nos ensina que os rituais, como o da virada do ano, têm um papel essencial na organização da vida psíquica. Assim como os sonhos ajudam a elaborar experiências não digeridas, os rituais permitem transformar o caos em ordem, dando contornos simbólicos ao que é muitas vezes vivenciado como informe e inominado. O Ano Novo, nesse sentido, não é apenas a mudança de um número no calendário, mas uma oportunidade de lidar com os lutos do passado e de mobilizar a energia psíquica para projetar-se no futuro.

No entanto, como todo símbolo, a festa de Ano Novo traz consigo a ambivalência. Há, por um lado, a esperança autêntica e necessária, que nutre a capacidade de desejar, planejar e sonhar. Por outro, pode surgir uma idealização que nos distancia da realidade, um tipo de ilusão paralisante que projeta no futuro a resolução mágica de todas as dificuldades e dores. Freud já nos alertava que o desejo de fugir do sofrimento muitas vezes nos leva a buscar refúgio em fantasias, ignorando que o enfrentamento das dificuldades é o único caminho para a verdadeira transformação.

A metáfora da "folha em branco" que muitos evocam ao final do ano é, de fato, inspiradora, mas precisamos lembrar que a vida não se apaga em um estalo. Cada novo ano carrega consigo os ecos do que vivemos, e só podemos construir algo novo se tivermos coragem de enfrentar e elaborar o que ficou para trás. A psicanálise nos convida a um olhar honesto sobre nossa própria história, ajudando-nos a entender que as mudanças reais nascem não de resoluções grandiosas, mas de movimentos internos que reconhecem a tensão entre o desejo e a realidade.

É importante, então, que os votos de Ano Novo não sejam apenas promessas vazias ou compromissos idealizados, mas que carreguem uma dose saudável de realismo e introspecção. A esperança verdadeira não é uma negação do presente, mas um gesto criativo que, ao acolher as limitações, nos impele a fazer algo com elas. Desejar um ano melhor é desejar uma relação mais plena consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

Os fogos de artifício iluminam o céu por um instante e se apagam, assim como os momentos de euforia que acompanham as celebrações. O desafio está em continuar acendendo pequenas luzes no cotidiano, nas decisões diárias, nos gestos que dão sentido à existência. O ano que começa é um convite, mas não uma promessa; é uma tela aberta, mas não vazia, onde as cores e traços que escolhermos dependerão de nosso trabalho interno.

Que cada um de nós possa, na passagem do ano, acolher o passado com generosidade, projetar o futuro com realismo e caminhar pelo presente com coragem. Que possamos encontrar no ritual da virada um impulso para transformar, mas sem perder de vista que o verdadeiro movimento acontece quando ousamos estar plenamente vivos, com todas as imperfeições e possibilidades que isso implica. Pois, como nos ensinam os poetas, o novo ano não está fora: ele precisa nascer, sobretudo, dentro de nós.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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