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Londrina

Sylvio do Amaral Schreiner - Mundo Vivo

m de leitura Atualizado em 29/04/2022, 14:49

O pior louco

Se sabemos de nossas loucuras podemos nos cuidar, mas se a desconhecemos ficamos entregues a elas

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de maio de 2022

Sylvio do Amaral Schreiner
AUTOR autor do artigo

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O psicanalista da cidade de São Paulo Cecil Rezze criou um modelo para se pensar a mente muito interessante. Ele comparou o desenvolvimento mental à evolução da crosta terrestre. Como sabemos atualmente a crosta terrestre é uma camada fina, resfriada e superficial do magma em ebulição que preenche o interior do planeta. A crosta é formada por placas tectônicas que estão “flutuando” ou “boiando” nesse magma que é liquido e por isso mesmo as placas tectônicas acabam fazendo pressão ou “colidindo” umas com outras o que origina terremotos que podem ser bastante destrutivos. Até há certa estabilidade, mas de tempos em tempos essas colisões ocorrem e trazem imensos prejuízos para a vida na superfície do planeta. Pois bem, da mesma forma que se organiza o planeta em relação ao seu interior e superfície funciona também nossa mente e nossas emoções.

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. |  Foto: iStock
 

Mesmo a pessoa mais estável, mas “analisada” que possa ser está sujeita a terremotos emocionais e ao enlouquecimento. Ninguém está a salvo disso, ninguém está imune, assim como ninguém nesse planeta está isento de passar por terremotos, mesmo que esteja longe das áreas mais conhecidas pelos terremotos. A verdade é que de uma hora para outra até mesmo regiões sem histórico de terremoto pode vir a presenciar eventos desse tipo. Com nossa vida mental é bem assim.

Muitas vezes idealizamos que podemos obter um “passe de imunidade” à nossa vida mental. Coisa que não existe. Se ninguém está seguro cem por cento então não vale a pena fazer análise, procurar se expandir ou se desenvolver? Claro que vale e muito. Uma pessoa com seus recursos internos mais desenvolvidos tem muito mais chances de se prevenir para eventos que podem ser arrebatadores e fazer alguém perder o chão. Quanto mais desenvolvemos mais chance criamos de nos preservar e menos ficamos suscetíveis à fúria da natureza psíquica em todos nós.

Mesmo valendo a pena, sendo um recurso extremamente válido se desenvolver, isso não cria imunidade total frente à própria mente. É que há pessoas que acham que porque se desenvolveram um pouco se acham muito onipotentes e acreditam serem seres de uma categoria especial que estão inatingíveis para qualquer evento de natureza mental. Essa onipotência pode ser algo que gera muitas tragédias na vida dessa pessoa e de muitas outras ao redor.

Mesmo um psicanalista que passou por um extenso processo de análise em sua formação não está eximido de enlouquecer em algum momento e trocar os pés pelas mãos, ou seja, se atrapalhar. Infelizmente vejo muitos profissionais da área psi que se acreditam acima dessas questões humanas e abrem espaço para muitos estragos. Tal como um jardim requer constantes cuidados para se manter, nossas mentes também precisam de cuidados perenes. Ninguém está tão “iluminado” a ponto de não ter que olhar para si frequentemente e realizar as manutenções necessárias para continuar pensando e elaborando a vida.

Como diz um ditado popular bem verdadeiro: mais louco que o louco é aquele que não sabe que é louco. Se sabemos de nossas loucuras podemos nos cuidar, mas se a desconhecemos... ficamos entregues a elas.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina 

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