O fenômeno do vício em sites de apostas
A compulsão pelo jogo pode ser entendida como uma tentativa desesperada de lidar com um vazio e dor internos existentes dentro de todos nós
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de dezembro de 2024
A compulsão pelo jogo pode ser entendida como uma tentativa desesperada de lidar com um vazio e dor internos existentes dentro de todos nós
Sylvio do Amaral Schreiner 

O vício em sites de apostas, fenômeno que se alastra com alarmante intensidade nos tempos atuais, coloca em evidência dinâmicas psíquicas, onde o desejo, a compulsão e a busca por gratificação coexistem de maneira trágica. A relação com o jogo ultrapassa o caráter de mero entretenimento para muitos, transformando-se em um ciclo compulsivo que deteriora laços familiares, destrói redes de apoio social e, em casos extremos, culmina no suicídio.
A compulsão pelo jogo pode ser entendida como uma tentativa desesperada de lidar com um vazio e dor internos existentes dentro de todos nós. No caso do vício em apostas, a repetição obsessiva de apostar pode ser vista como uma busca incessante por algo que nunca é verdadeiramente alcançado: o "grande prêmio", que, no nível inconsciente, não é o dinheiro, mas a reparação de uma falta intrínseca.
A contemporaneidade exacerba essa dinâmica. A facilidade de acesso aos sites de apostas, a ilusão de controle e a promessa de um ganho imediato configuram um cenário perfeito para capturar pessoas vulneráveis. Esses indivíduos, muitas vezes marcados por histórias de perdas emocionais significativas ou por falhas no reconhecimento de suas capacidades criativas, encontram no jogo uma forma de escapar, mesmo que momentaneamente, do desamparo que os acomete.
No entanto, a compulsão não apenas falha em aliviar esse desamparo como o intensifica. O que começa como uma tentativa de preencher um vazio se torna uma engrenagem que consome o sujeito, comprometendo sua autoestima e capacidade de pensar. A ruína financeira não é apenas um fato concreto; é, simbolicamente, a externalização de uma sensação de colapso interno, uma vivência de desintegração que parece irremediável.
Diante desse quadro, o roubo de amigos e familiares e os episódios de suicídio emergem como atos-limite. O roubo, na sua essência, pode ser compreendido como uma expressão de desespero: um gesto que busca, a qualquer custo, manter viva a ilusão de que o próximo lance será o último, o libertador. Já o suicídio, embora trágico, muitas vezes surge como a única saída percebida por um sujeito que não vê alternativas para escapar de um ciclo de autodestruição.
O hábito compulsivo não é apenas um sintoma isolado, mas um fenômeno multifacetado que reflete questões mais amplas que precisam de cuidados. Na clínica, a escuta psicanalítica se mostra essencial para abordar esses casos, permitindo que o indivíduo reconecte suas experiências com um campo simbólico mais amplo. A possibilidade de nomear o vazio, de compreender as angústias subjacentes e de reconstruir as capacidades psíquicas criativas é o que pode oferecer uma alternativa ao ciclo repetitivo.
A sociedade, por sua vez, também precisa olhar para esse fenômeno como um sintoma coletivo. O crescimento do vício em sites de apostas é reflexo de uma cultura que glorifica o ganho imediato e desvaloriza o processo de construção subjetiva. A prevenção e o tratamento não devem se restringir ao nível individual, mas envolver um esforço coletivo para criar condições que favoreçam o desenvolvimento emocional, o fortalecimento das redes de suporte e a regulação de práticas exploratórias que lucram com o sofrimento humano.
Assim, combater o vício em apostas não é apenas uma questão de restringir o acesso aos sites ou punir os indivíduos envolvidos. É, acima de tudo, um chamado à reflexão sobre como lidamos com o vazio, com a perda e com a esperança de uma vida mais significativa. A aposta real, neste caso, é na reconstrução do tecido psíquico e social que permita às pessoas encontrar formas mais saudáveis e criativas de lidar com suas dores e desejos.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


