O fascínio pelo perverso
Há algo profundamente triste no sucesso quase hipnótico das séries e filmes sobre criminosos e serial killers
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Há algo profundamente triste no sucesso quase hipnótico das séries e filmes sobre criminosos e serial killers
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há algo profundamente triste no sucesso quase hipnótico das séries e filmes sobre criminosos e serial killers. Não se trata apenas de entretenimento. É como se essas narrativas tocassem regiões subterrâneas da mente, onde fantasia e moralidade se encontram em conflito. A figura do criminoso impune, do assassino meticuloso ou do golpista que dribla todas as consequências captura o imaginário justamente por evocar aquilo que, em cada um de nós, permanece recalcado: o desejo de transgredir limites, desafiar a lei e escapar das responsabilidades que moldam a vida em sociedade.
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A psicanálise nos ensina que a civilização é construída sobre renúncias. Cada sujeito, ao longo de seu desenvolvimento, precisa abrir mão de impulsos onipotentes que seriam destrutivos se vividos sem freio. Freud chamou isso de preço da vida em sociedade. Renunciamos à onipotência para podermos existir junto ao outro, o que nos permite criar laços, trabalhar, amar e produzir. No entanto, essas renúncias deixam restos, que vivem no inconsciente como fantasias de poder absoluto. As séries de criminosos tocam precisamente esses restos.
O fascínio pelo criminoso impune parece surgir quando o espectador se identifica com a promessa imaginária de estar acima das leis, porém não apenas as leis do Estado, mas as leis internas que regulam o convívio humano. A fantasia de pertencer a um “clube distinto”, intocável, onde não se paga preço algum por agir movido apenas pelo próprio desejo, é profundamente sedutora. Ela reacende, de forma mascarada, a antiga ilusão infantil de que tudo nos seria permitido.
Contudo, há aqui um perigo sutil. Quando o criminoso aparece envolto em glamour, quando a impunidade é apresentada como sinônimo de liberdade, cria-se uma distorção na percepção de valores. É como se o espectador fosse convidado a confundir destrutividade com poder, como se matar, manipular ou burlar representassem uma forma de grandeza. Há algo de perverso nessa equação. A vida é reduzida a um jogo onde inteligência e astúcia justificam a violência, e onde o outro existe apenas como objeto descartável.
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O verdadeiro poder não está em destruir, mas em criar. O poder que sustenta o tecido social e possibilita a vida não nasce da transgressão impune, mas da capacidade de transformar impulsos em vínculos, palavras, obras e relações que ampliam o mundo interno e externo. A onipotência perversa, tão celebrada nas telas, seduz justamente porque evita o encontro com a realidade psíquica de que viver implica limites. E limites são dolorosos. Só que quem tenta viver sem limites, transgredindo, acaba sofrendo também e até mais, porque se despedaça por dentro. Não há como transgredir sem tem que se fragmentar internamente.
Talvez o grande sucesso dessas séries não esteja no criminoso em si, mas na brecha que elas abrem para que cada pessoa sonde sua própria relação com a lei, com o desejo e com a fantasia de poder absoluto. Se, por um lado, elas revelam o fascínio pelo proibido, por outro indicam o quanto precisamos, enquanto sociedade e indivíduos, reencontrar o valor da criação, da responsabilidade e da ética que tornam a convivência possível. O verdadeiro privilégio não é viver sem consequências, mas construir condições internas para viver com profundidade, compromisso e humanidade.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


