O pensamento de Carlos Drummond de Andrade sobre o diálogo, "Dialogar é dizer o que pensamos e suportar o que os outros pensam", nos convida a refletir sobre as tensões que surgem no encontro entre o eu e o outro (não-eu). Esse encontro, quando genuíno, exige não apenas a coragem de expressar nossos pensamentos e sentimentos, mas também a capacidade de suportar a diferença, a alteridade, o que o outro traz de singular e por vezes dissonante.

Numa sessão psicanalítica, o diálogo não se trata de uma simples troca de informações, mas de um processo profundo de escuta e interpretação, em que o inconsciente de ambos os interlocutores está presente. Há um constante olhar entre o dito e o não-dito, o que o paciente comunica e o que o analista ouve e devolve, muitas vezes de forma transformada. A palavra, nesse contexto, carrega o potencial de abrir caminhos para a verdade psíquica, ao mesmo tempo que revela resistências, ansiedades e defesas.

Ao dizer o que pensamos, nos deparamos com a dificuldade inerente à linguagem, pois nem sempre o que queremos comunicar encontra uma correspondência exata nas palavras. Bion, psicanalista inglês, nos ensina sobre a importância da "experiência emocional não verbalizável", aquela que escapa ao discurso racional e linear. O analista, ao escutar, precisa suportar o desconforto do não saber, da incerteza, para que algo novo possa emergir. Esse é um movimento que exige uma disposição interna para suportar o que não compreendemos de imediato, seja em nós mesmos, seja no outro.

“Suportar o que os outros pensam" implica uma postura de abertura. É necessário suportar o impacto emocional que o pensamento alheio pode provocar em nós. Muitas vezes, o que o outro nos diz ressoa em áreas sensíveis, despertando reações defensivas, resistências ou mesmo identificações inconscientes. A reação instintiva pode ser a de recusar ou rechaçar aquilo que nos desestabiliza, especialmente se toca em pontos de nossa própria vulnerabilidade. Isso tudo pode ocorrer em todas as relações

Suportar o pensamento do outro nos coloca diante da angústia da diferença. Podemos resistir à ideia de que o outro tenha uma perspectiva diferente da nossa, e esse embate pode gerar crises. No entanto, essas crises são oportunidades de crescimento, pois forçam ambos a lidarem com as fraturas inevitáveis que ocorrem na relação. Tais fraturas podem ser elaboradas, permitindo a construção de um espaço onde a convivência com o diverso não é mais tão ameaçadora.

Drummond, ao usar o termo "suportar", parece captar algo da dificuldade humana em lidar com a alteridade. "Suportar" indica que, para além de aceitar ou tolerar, há algo a ser carregado, um incômodo que precisamos sustentar. Na psicanálise, esse incômodo pode ser entendido como o confronto com o estranho em nós mesmos. O pensamento do outro, muitas vezes, reflete algo que não queremos reconhecer em nosso próprio psiquismo e nos desafia a enfrentar aquilo que nos escapa.

Assim, o diálogo, como propõe Drummond, é um exercício de coragem psíquica. Requer que estejamos preparados para o impacto do que o outro é o não-eu, o diferente. É nesse espaço entre o eu e o outro, na fricção entre o conhecido e o desconhecido, que se dá a verdadeira transformação psíquica. O processo analítico nos ensina que suportar a diferença é parte essencial do crescimento emocional, pois é na tensão entre o que pensamos e o que o outro pensa que o novo pode emergir e a mente pode expandir-se.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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