O 'devemos ser assim' é uma prisão
Muitas pessoas ficam presas à imagem e, com isso, se impedem de criar relações verdadeiras.
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segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Muitas pessoas ficam presas à imagem e, com isso, se impedem de criar relações verdadeiras.
Sylvio do Amaral Schreiner 
Correu a internet alguns dias atrás uma notícia da cidade de Limeira, no interior de São Paulo, sobre um casal com planos de se casar e que estava à procura de um cerimonialista para organizar a festa. Achado o profissional iniciaram as negociações de como seria o casório. No entanto, depois, o casal mandou uma mensagem para o cerimonialista o dispensando porque havia descoberto que ele era filho de mãe solteira e, segundo os mesmos, eles estavam procurando alguém que tivesse uma base familiar estruturada. Como ele não se encaixava nos padrões do que para eles seria uma família, decidiram declinar dos seus serviços. A mensagem terminou com desejos de que o profissional entendesse e que ficasse com Jesus Rei.
Esta notícia me fez pensar sobre como as pessoas ainda não entenderam o que é de fato uma família. Provavelmente, esses noivos, prestes a se casar e, talvez, constituir uma família não saibam nada sobre o que “família” realmente significa. O que eles sabem, entretanto, é a imagem que fazem de como deve ser uma família.
Muitas pessoas ficam presas à imagem e, com isso, se impedem de criar relações verdadeiras. Pode ser que munidos de uma visão religiosa preconceituosa eles estivessem muito mais interessados em ter uma família de imagem, de comercial moralista, do que construir laços verdadeiros baseados na afetividade e verdade. Com muita facilidade trocamos a verdade pelas imagens que parecem nos trazer segurança.
Família não é uma imagem, ou pelo menos não deveria ser. O que forma uma família não são as certidões de casamento, estar morando sob o mesmo teto ou seguir o protocolo de existir pai, mãe e filhos. Claro que uma família pode ser tudo isso, mas apenas se houver relações de qualidade entre os seus membros. Se houver afetos e amor. Caso contrário, o que há é um amontoado de gente brincando de casinha, ou seja, fingindo ser uma família.
Existem famílias formadas apenas por mãe e filhos, ou apenas por pai e filhos. Há também famílias formadas por casais homoafetivos: dois pais ou duas mães e filhos. Há famílias constituídas apenas pelo casal, sem filho algum. Não podemos nos esquecer que há também aquelas famílias formadas sem parentesco ou casamento, mas baseadas nas amizades que estabelecemos ao longo da vida. Muitos amigos, por exemplo, são mais irmãos que muitos irmãos de sangue.
Quando este triste casal de Limeira privilegia a aparência ao invés da verdade causa um tremendo problema para si próprio. Eles ficam presos à imagem. Aí tudo o que é vivido tem que se encaixar nas suas idealizações. Buscar viver a idealização é sempre uma prisão. Quantas vezes não somos quem podemos vir a ser, porque não nos permitimos, já que carregamos uma ideia do que devemos ser? Isso não é vida, mas prisão. Porém, é fato que são inúmeras as pessoas por aí que valorizam mais a prisão que a vida.
O ser humano tanto pode ser uma criatura espetacular e nos surpreender com grandes gestos e feitos quanto ser bestas emburrecidas cheias de preconceitos. O que vamos escolher ser? É uma tarefa a se pensar com muito cuidado.


