O desprezo
Por que estamos tão obcecados em sermos alguém perfeccionista e tememos ser simplesmente comuns?
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de julho de 2023
Por que estamos tão obcecados em sermos alguém perfeccionista e tememos ser simplesmente comuns?
Sylvio do Amaral Schreiner 

Um artigo da revista inglesa The Economist mostra o quanto as pessoas estão preocupadas e envolvidas em serem perfeitas: perfeitos funcionários, perfeitos maridos e esposas, perfeitos pais, perfeitos isso e aquilo; e o quanto ser comum parece hoje em dia um palavrão, uma ofensa a ser evitada a todo custo. Por que estamos tão obcecados em sermos alguém perfeccionista e tememos ser simplesmente comuns?
Na era dos 15 minutos de fama que as redes sociais propiciam todo mundo precisa aparecer e não é aparecer de qualquer jeito, mas de uma maneira que seja extraordinária. Há toda uma cobrança do meio em que vivemos e principalmente de dentro de nós mesmos para sermos alguém nessa vida. Todo o mundo quer ser alguém. Aí é que se começam os equívocos e os sofrimentos desnecessários.
Quando imaginamos que temos que ser alguém nesse mundo fantasiamos e criamos um personagem que deveríamos ser. Isso ocorre dentro das famílias quando os pais elaboram uma imagem de quem os filhos deveriam ser, fazer, cumprir, etc. Acontece também o inverso: filhos que concebem que os pais teriam que se comportar de um jeito assim ou fazerem aquilo.
Empresas, por sua vez, também vão criando uma imagem de como seus colaboradores precisariam ser e cobram isso até cruelmente. O padrão está lá nas alturas, tão alto que fica inalcançável. Quando o modelo que pretendemos atingir está fora do alcance criamos a exclusão e tudo aquilo que está fora, que está à margem, fica marginalizado e, portanto, desprezado.
A grande verdade é que não vivemos hoje na sociedade dos altos padrões, mas na sociedade do desprezo e os altos padrões justificam apenas o desprezo que vamos vivendo por nós mesmos, pelo mundo e pelos outros. O grande esporte hoje é desprezar e quando verificamos que que queremos ser perfeitos é porque desprezamos o que é comum, ou em outras palavras, desprezamos o que é humano.
O sobre-humano, o extra-humano é altamente valorizado enquanto aquilo que é humano parece que precisa ser posto de lado, deixado à margem. Ninguém mais quer ser pessoas humanas com seus defeitos e falhas, com suas angústias e medos, com suas singularidades, com suas qualidades e criatividades, porém querem ser espetaculares, notáveis e magníficos. Temos que ser mais felizes, com corpos extremamente sensuais, com estrelas na testa de melhores alunos, com bônus de funcionários perfeitos. Essas cobranças são desgastantes. São até mesmo corrosivas porque corrói justamente o humano que podemos nos tornar focando apenas na fantasia de quem deveríamos ser.
Obviamente, precisamos e podemos sempre nos tornar melhores, crescer e aprender. Faz parte da vida buscarmos melhorias e expansões. Contudo, o que está faltando é crescer como humanos, não procurando fugir de nossa humanidade. Hoje em dia ser comum ou humano é um verdadeiro ato de resistência e elegância. Só quem se permite ser verdadeiramente humano vai lidar consigo mesmo de uma maneira mais justa e acolhedora e por isso mesmo vai lidar com o mundo assim também. Quem é verdadeiramente humano não precisa desprezar outros humanos e nem o mundo. Pode ficar próximo de tudo aquilo que não é perfeito e não irá cobrir perfeição de nada. Está faltando humanos!
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


