Luto pelo filho imaginado
O filho que pode se separar das projeções dos pais, que pode se apropriar de seu próprio caminho, encontra uma forma mais autêntica de viver
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segunda-feira, 28 de julho de 2025
O filho que pode se separar das projeções dos pais, que pode se apropriar de seu próprio caminho, encontra uma forma mais autêntica de viver
Sylvio do Amaral Schreiner 

Na clínica, não é incomum escutar histórias de pessoas que cresceram em meio a expectativas grandiosas, megalomaníacas e cuidadosamente construídas pelos pais. Esperava-se que fossem brilhantes, reconhecidas, admiradas, o orgulho da família. Muitas vezes, essas exigências vinham acompanhadas de amor, de cuidados, de oportunidades reais de desenvolvimento. Mas, ainda assim, deixavam marcas profundas: um sentimento de dívida insaciável, uma vida vivida em nome de um desejo que não era propriamente seu.
O desejo dos pais pelos filhos é inevitável. Desde antes de nascer, o filho já é sonhado, idealizado, nomeado, investido de significados que o precedem. Isso faz parte da construção psíquica da parentalidade e da própria constituição do bebê. No entanto, quando o desejo dos pais se torna colonizador, quando os filhos passam a existir para realizar um ideal, para consertar um passado ou para provar ao mundo o valor de seus progenitores, a relação deixa de ser acolhedora e passa a ser prisão.
Pais que nunca conseguiram ser reconhecidos podem desejar filhos brilhantes para que finalmente sejam vistos, ainda que indiretamente. Pais frustrados com a própria história projetam nos filhos um futuro de conquistas que os redimiriam das perdas. O problema é que, nessas situações, o filho deixa de ser filho e passa a ser projeto. Um projeto que, para manter o amor parental, precisa dar certo.
A psicanálise nos ensina que essa espécie de investimento narcísico dos pais nos filhos pode gerar sérias consequências para o desenvolvimento emocional dos jovens. Há, nesses casos, uma falha de reconhecimento do filho como sujeito de desejos próprios, com tempo psíquico particulares e vocações que, muitas vezes, não coincidem com as expectativas familiares. O filho não é escutado em sua alteridade, mas moldado para corresponder a um ideal.
E mesmo quando esse ideal se realiza, quando o filho se torna famoso, bem-sucedido, admirado, nem sempre há alívio. Ao contrário, muitos desses filhos relatam um sofrimento silencioso através de uma sensação de impostura, um vazio que não é preenchido pela glória, uma dificuldade em saber quem se é fora do papel que desempenharam para satisfazer os pais. Por trás de uma imagem pública impecável, frequentemente existe uma criança que aprendeu a se adaptar para ser amada, mesmo que isso lhe custasse a espontaneidade, a liberdade, a verdade do desejo.
A função parental implica em se estar com o filho como quem acolhe o desconhecido, o incerto, sem impor um roteiro de vida. A verdadeira presença parental é aquela que sustenta sem sufocar, que oferece raízes e asas, que suporta o desvio das expectativas.
O filho que pode se separar das projeções dos pais, que pode se apropriar de seu próprio caminho, mesmo que esse caminho seja modesto aos olhos do mundo, encontra uma forma mais autêntica de viver. E os pais que conseguem renunciar à fantasia de um filho ideal, abrindo espaço para conhecer o filho real, descobrem uma nova possibilidade de amor: menos narcísica, mais humana.
Essa, talvez, seja uma das tarefas mais difíceis e mais belas da parentalidade: permitir que o outro seja ele próprio, mesmo que isso frustre nossas expectativas. Porque, no fundo, ser pai ou mãe é um trabalho contínuo de luto e de renascimento. Luto pelo filho imaginado, renascimento do amor pelo filho possível.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


