O recente caso envolvendo a denúncia do influencer londrinense Felca sobre erotização infantil na internet trouxe à luz um problema que, embora não seja novo, vem se intensificando na era digital: a exposição indevida e abusiva de crianças e adolescentes em ambientes virtuais. A psicanálise, ao abordar este fenômeno, não pode se limitar à constatação dos fatos; é preciso compreender o impacto subjetivo profundo que essas experiências provocam em mentes em formação.

Crianças e adolescentes possuem um aparelho psíquico ainda em desenvolvimento, com recursos limitados para discernir entre o que é cuidado e o que é exploração. A busca por aprovação, natural e necessária nesta etapa, torna-os extremamente vulneráveis ao olhar e ao julgamento do outro. Quando esse olhar é sexualizado precocemente, impõe-se uma intrusão que invade o espaço interno e rompe a possibilidade de amadurecimento saudável. O que deveria ser vivido de forma gradual, mediada pelo afeto e pela proteção, é atropelado por experiências para as quais não há suficiente aparato emocional de elaboração. Freud descreveu o trauma como um excesso de excitação que o psiquismo não consegue simbolizar; nesse contexto, a erotização precoce atua como um verdadeiro curto-circuito na construção da autoestima e da identidade que esses jovens carregarão para o futuro em suas vidas.

Um capítulo especialmente grave deste problema é o comportamento de pais e responsáveis que expõem seus filhos nas redes sociais como se fossem objetos de consumo, “conteúdo” para engajamento. Fotos, vídeos e relatos da vida íntima, muitas vezes com conotação afetiva deturpada, são publicados sem considerar que, na internet, o registro é praticamente permanente e fora de controle. Este ato revela uma inversão na função parental: ao invés de proteger a criança do olhar indiscriminado, abre-se mão do pudor e do limite, oferecendo-a ao campo da aprovação pública. Para a psicanálise, tal movimento implica falhas importantes nas funções de cuidado e continência, pois o adulto deixa de ocupar o lugar de barreira protetora, expondo o filho a riscos que ele mesmo não é capaz de avaliar e mensurar.

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O resultado psíquico desse tipo de exposição e erotização precoce pode ser devastador. A criança ou adolescente, incapaz de compreender plenamente o sentido das situações às quais é submetida, tende a moldar seu comportamento para atender às expectativas externas, perdendo contato com sua autenticidade. Isso cria terreno fértil para sentimentos crônicos de inadequação, vergonha e confusão identitária, prejudicando a capacidade de estabelecer relações saudáveis no futuro. Quando o valor pessoal passa a depender do olhar e do desejo do outro, a autoestima se constrói sobre bases frágeis, facilmente destruídas por críticas, rejeições ou desinteresse.

A sociedade contemporânea precisa se perguntar sobre o tipo de herança simbólica que estamos deixando para as novas gerações. A psicanálise nos lembra que a infância é um território que deve ser protegido, não explorado; é no abrigo do cuidado, e não sob os holofotes da aprovação virtual, que se constrói a segurança interna necessária para enfrentar a vida. Desconsiderar isso é contribuir para uma forma silenciosa, porém potente, de violência psíquica.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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