Inconsciente, inteligência artificial e a mente que ainda não conhecemos
Diferentemente do inconsciente humano, formado por memórias, afetos, recalques e desejos, a inteligência artificial não pensa, não sofre, não sonha, não esquece, não duvida
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de junho de 2025
Diferentemente do inconsciente humano, formado por memórias, afetos, recalques e desejos, a inteligência artificial não pensa, não sofre, não sonha, não esquece, não duvida
Sylvio do Amaral Schreiner 

Freud, ao fundar a psicanálise, desferiu um dos golpes mais profundos na ilusão de que tínhamos sobre nós mesmos. A partir da escuta dos sintomas, dos sonhos e dos atos falhos, revelou que há em nós uma instância: o inconsciente, que opera à revelia do Eu, determinando pensamentos, escolhas, desejos e repetições. Com isso, mostrou que boa parte de nossa vida não é dirigida pela razão, mas por movimentos psíquicos subterrâneos, por vezes insuspeitados, até mesmo pelo sujeito que os vive. A psicanálise, desde então, passou a se ocupar em acompanhar esse território invisível e irredutível à lógica da consciência humana.
Curiosamente, hoje nos deparamos com uma nova forma de “funcionamento invisível” que, à semelhança do inconsciente, também começa a decidir por nós: a inteligência artificial. Os algoritmos, treinados com volumes monumentais de dados, processam informações e emitem sugestões, completam frases, selecionam conteúdos, escolhem o que aparecerá nas redes sociais e até mesmo com quem deveríamos nos relacionar. Silenciosa e eficiente, a IA atua na sombra, influenciando comportamentos, preferências e afetos, tal como o inconsciente, que opera fora do campo da percepção imediata, mas com efeitos muito reais.
No entanto, diferentemente do inconsciente humano, formado por memórias, afetos, recalques e desejos, a inteligência artificial não pensa, não sofre, não sonha, não esquece, não duvida. É um sofisticado sistema de correlação de dados, capaz de simular conversas e identificar padrões, mas sem interioridade, sem subjetividade e, portanto, sem verdade no sentido psicanalítico do termo. Não há desejo numa máquina, tampouco ambivalência, conflito ou criação espontânea. O que chamamos de "inteligência" nesse contexto é, na verdade, uma performance calculada de previsibilidade estatística. E o que chamamos de “artificial” não está completamente desligado de nós: é feito por humanos, alimentado por humanos e enviesado pelos humanos. Trata-se, portanto, de uma ficção útil, mas não de uma forma de vida ou de pensamento.
A ideia de que a IA poderá substituir ou superar o cérebro humano é mais uma fantasia do que uma possibilidade real. O cérebro, como instância biológica e psíquica, é infinitamente mais complexo que qualquer rede neural digital. Nele habitam não apenas conexões e sinapses, mas também experiências vividas, traumas, intuições, lapsos e contradições. Ele abriga não apenas informações, mas transformações. Não apenas respostas, mas perguntas. E, sobretudo, capacidade de simbolização, função essencial que nos permite transformar dor em linguagem, ausência em presença, perda em criação.
O paradoxo, contudo, é que mesmo com essa mente tão rica e potente, seguimos pouco conscientes da profundidade de nosso próprio psiquismo. Avançamos em tecnologias externas, mas ainda engatinhamos no uso de nossa tecnologia interna. Com menos acesso à nossa inteligência interna mais suscetíveis ficamos ao que o mercado da IA nos propõe e isso pode ser perigoso, sim, pois pode nos afetar de inúmeras maneiras. A inteligência que nos habita não é feita de velocidade, mas de escuta e elaboração. O desafio da psicanálise continua sendo o mesmo: nos fazer suportar o que há de mais estranho e genuinamente nosso, e nos reconectar com o enigma que somos.
Enquanto isso, a inteligência artificial pode, no máximo, servir como uma nova metáfora para pensarmos o inconsciente. Mas jamais poderá substituí-lo porque ao fim, o que realmente nos constitui, escapa à programação. E isso, para o bem e para o mal, é o que nos torna humanos.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


