Há algo em nós que adora sofrer. Não é um gosto evidente, muito menos consciente, mas uma satisfação silenciosa, quase secreta, que se alimenta quando nos percebemos injustiçados, mal compreendidos ou mergulhados em algum tipo de dor. Essa parte — muitas vezes ignorada — encontra uma força peculiar na sensação de ser vítima. Como se houvesse, no sofrimento, uma dignidade própria, um brilho sombrio que oferece ao sujeito um lugar no palco da vida: o de protagonista do infortúnio.

"Meu sofrimento é único", diz uma voz interna. E assim se ergue uma personagem: aquela que carrega dores como estandartes, que transforma feridas em identidade, que se nutre da atenção e da compaixão dos outros. A dor, nesse cenário, deixa de ser uma experiência transitória para tornar-se um papel. Um lugar existencial. E quanto mais nos identificamos com esse lugar, mais sentimos que deixá-lo seria trair a nós mesmos.

A psicanálise, no entanto, propõe outra via. Ela não nega a dor. Ao contrário, reconhece profundamente sua presença inevitável na condição humana. Porém, convida o sujeito a escutar com mais atenção o que faz com ela. O sofrimento pode ser vivido, sentido, acolhido — mas não precisa ser encenado eternamente. Há uma diferença importante entre sofrer e se apegar ao sofrimento. Entre ser atravessado por uma dor e fazer dela a moldura de si próprio.

Por que insistimos em repetir dores antigas? Por que, mesmo quando a ferida já cicatrizou, mantemos o curativo como se ainda houvesse ali algo que sangra? Há satisfações inconscientes que podem estar envolvidas no sofrimento, sobretudo quando ele se inscreve no circuito das repetições: repetimos porque há um ganho oculto — seja na forma de atenção, proteção, isenção de responsabilidade ou uma narrativa coerente para o caos interno.

Essa repetição que nos oferece algum alívio imediato, também aprisiona. Aquele que se identifica demais com sua dor corre o risco de se tornar incapaz de desejar outras coisas. Desejar exige abrir mão de algumas certezas dolorosas. Exige deixar o palco da vitimização e caminhar para um terreno mais incerto: o da responsabilidade por si mesmo, o da construção de uma vida mais viva, ainda que com inevitáveis frustrações.

A análise é, portanto, um espaço de ruptura com a encenação do drama. Não porque banaliza o sofrimento, mas porque o escuta de outro modo. Ela pergunta: o que há de repetido aqui? Que lugar essa dor ocupa na sua história? Quem você seria se não estivesse mais identificado com essa ferida? E, talvez o mais inquietante: o que você teria que enfrentar se abrisse mão desse sofrimento?

Essa escuta analítica abre espaço para algo novo. O sujeito pode, aos poucos, se dar conta de que o sofrimento é uma parte — legítima — da existência, mas não é tudo. E que sustentar a dor como identidade cobra um preço: o da estagnação, da vida que não avança, do desejo que se enfraquece. Em análise, temos a chance de reposicionar essa dor, de enxergá-la como algo que nos atravessa, mas que não nos define.

Sofrer é humano. Mas fazer do sofrimento uma escolha é algo que pode ser transformado. E, ao reconhecermos esse aspecto em nós, ganhamos também a liberdade de escolher melhor: escolher a vida e não a dor. A análise, nesse sentido, é um gesto de coragem — um convite para sair do papel de vítima e experimentar a autoria de si.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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