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Londrina

Sylvio do Amaral Schreiner - Mundo Vivo

m de leitura Atualizado em 13/06/2022, 03:24

Aprender a se entristecer

É muito importante entristecer-se e ter esse momento de depressão respeitado, sem que precise-se ‘alegrar’ a pessoa a qualquer custo

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de junho de 2022

Sylvio do Amaral Schreiner
AUTOR autor do artigo

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Somos obrigados a aparentar uma felicidade em todos os momentos pelos nossos familiares, amigos e pares sociais. Parece que estar triste é quase ofensivo ou sinônimo de fracasso. Como se a tristeza fosse algo que compulsoriamente tivesse que ser erradicada do planeta e das vidas de cada um de nós. Hoje em dia a tristeza não é tratada como algo natural, mas como se fosse algo ‘errado’, uma anomalia a ser extirpada. O problema é que quando algo natural, ou seja, da nossa natureza é combatido e tratado como aberração isso cria muitos problemas em nossas vidas.

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. |  Foto: iStock
 

Vamos deixar claro que uma hora ou outra vamos todos ficar deprimidos na vida. A depressão pode tanto ser um estado clínico perene que adoece uma pessoa, privando-a da vida, quanto também um estado passageiro e natural que ocorre de tempos em tempos quando nos desorganizamos internamente para podermos nos organizar novamente de uma maneira mais proveitosa. Nesse tipo de depressão ou tristeza passageira algo se descontrói para abrir a possibilidade de algo diferente e mais favorável ser construído. Se não houver esse tempo de tristeza não poderá haver o abandono de algo que não nos serve mais para criar algo mais criativo e necessário. Daí a importância de se poder entristecer.

Há toda uma infinidade de remédios psiquiátricos que muitas vezes são amplamente usados para impedir a pessoa de sentir a tristeza. Na verdade, as impedem de sentir os próprios sentimentos e por isso mesmo evitam com que algumas pessoas possam reconhecer o que de fato sentem e lidar com sua vida. É fato que há pacientes que necessitam desses remédios, mas estou me referindo aqui àqueles que procuram se anestesiar e não de fato compreender o que lhes acontece. Quem procura se alienar de si mesmo busca evitar entrar em contato com o que sente e com isso perde-se uma grande oportunidade de aprender mais sobre si.

Quando uma pessoa recebe um diagnóstico de uma doença muito devastadora, por exemplo, todos os seus amigos e familiares exigem dela uma atitude positiva e combativa, sem abrir espaço para que possa deprimir-se. Todos querem ajuda-la, mas como já diz o ditado antigo “de boas intenções o inferno está cheio” e quanto mais tentam fazer a pessoa a ficar ‘bem’ mais isso sufoca porque não abre espaço para a tristeza que precisa ser sentida.

É muito importante entristecer-se e ter esse momento de depressão respeitado, sem que precise-se ‘alegrar’ a pessoa a qualquer custo. Quando tiramos o direito de alguém se deprimir nesses momentos, tiramos uma parte muito importante da sua vida.

Acho muito perigoso, nesse sentido, o que se passa nas redes sociais com alguns profissionais ‘psi’ (psicanalistas, psicólogos e psiquiatras). Já vi vários vídeos e postagens desses profissionais se alegrando com a melhora de seus pacientes, como se eles não ficassem mais para baixo, mas só para cima, sempre em alto astral. Isso é perigoso porque na verdade esses profissionais querem ter sua vaidade atendida, querem se ver e se provar como aqueles que tiraram a tristeza de seus pacientes. Em outras palavras, querem se ver como super-profissionais e incentivam que seus pacientes não se deprimam. Tal ação de tratamento faz mais mal que bem e obrigam os pacientes a aparentarem falsas melhoras para alimentar o narcisismo desses profissionais. Ao invés de serem tratados esses pacientes são impelidos a se enganar numa pseudo alegria. Os pacientes, geralmente, querem ser aceitos por esses profissionais e por isso ao perceberem, inconscientemente, que esses profissionais querem que eles tenham uma melhora eles vão criar essa melhora, mesmo que seja algo superficial e sem veracidade alguma. Quando isso acontece são esses profissionais que precisam urgentemente ir para o divã tratarem-se, para abrir espaço para a tristeza em suas vidas.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina 

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