Há um ditado oriental que diz: “A mente é um mestre terrível, mas um escravo fantástico. Você deve mantê-la assim”. A frase toca em um dos dramas mais comuns hoje em dia: o fato de que muitas pessoas passaram a viver governadas pelo o que fantasiam.

Não se trata aqui da mente enquanto aparelho psíquico complexo estudado pela Psicanálise ou pela neurociência, mas daquela atividade mental incessante que imagina, prevê, distorce, fantasia e cria cenários catastróficos. Uma mente que, quando assume o comando, transforma possibilidades em certezas e medos em destinos inevitáveis.

É curioso perceber como alguém pode estar sentado em segurança dentro de casa e, ainda assim, experimentar sofrimento real por algo que sequer aconteceu. Basta uma mensagem não respondida para a mente começar a fabricar histórias: “Ele deve estar bravo comigo”, “Fiz algo errado”, “Vou perder essa relação”. Em poucos minutos, o corpo reage como se a tragédia fosse concreta. O coração acelera, a angústia aparece, o sono desaparece. O sofrimento é verdadeiro, embora o cenário tenha sido criado internamente.

A ansiedade costuma funcionar exatamente assim. Muitas vezes, ela não nasce da realidade objetiva, mas da interpretação mental que fazemos dela. A mente passa a agir como um roteirista hiperativo que escreve dezenas de versões negativas sobre o futuro e nos obriga a atuar dentro delas. O problema é que, quando acreditamos cegamente em tudo o que pensamos, nos tornamos reféns de uma espécie de tirania interna.

Imagine uma pessoa que precisa fazer uma apresentação no trabalho. Dias antes, ela já começa a imaginar o fracasso: pessoas julgando, críticas, humilhações, demissão. Talvez nada disso aconteça. Talvez a apresentação sequer tenha grande importância para os outros. Mas, dentro dela, o desastre já ocorreu inúmeras vezes. A mente antecipou o sofrimento e o corpo respondeu como se estivesse diante de um perigo real.

Outro exemplo comum aparece nos relacionamentos. Quantas vezes alguém começa a sofrer não pelo que o parceiro fez, mas pelo que imagina que ele possa fazer? A pessoa vigia sinais mínimos, interpreta silêncios, cria hipóteses, revisita conversas mentalmente. Aos poucos, deixa de viver a relação concreta para viver apenas dentro das próprias fantasias ansiosas.

Isso não significa que devamos eliminar pensamentos ou fantasias. Ser humano é também imaginar, fantasiar, antecipar. O problema começa quando a mente deixa de ser uma ferramenta e passa a ser um comandante absoluto. Quando tudo aquilo que pensamos ganha estatuto de verdade inquestionável.

Uma faca na cozinha pode preparar uma refeição ou ferir alguém. A mente segue lógica parecida. Ela pode criar arte, ciência, poesia, soluções e projetos. Pode ajudar alguém a atravessar dificuldades, aprender, trabalhar, amar e construir sentido para a própria vida. Só que, sem certo equilíbrio, pode também aprisionar uma pessoa em medos imaginários, ressentimentos intermináveis e preocupações que nunca se concretizam.

Talvez por isso tanta gente hoje viva esgotada. Não apenas pelo excesso de tarefas externas, mas pelo excesso de barulho interno. A mente não descansa. Mesmo no silêncio, continua produzindo comparações, previsões, cobranças e ameaças invisíveis.

Aprender a lidar com a própria mente é uma das tarefas mais importantes de nossas vidas. Isso não significa dominar completamente os pensamentos, algo impossível, mas desenvolver a capacidade de não obedecer automaticamente a tudo o que surge dentro de nós.

Nem toda ideia merece crédito. Nem todo medo é previsão. Nem toda ansiedade é intuição. O sentido mais profundo do antigo ditado oriental é que a mente funciona melhor quando trabalha conosco e não quando nos governa.

¨¨¨¨¨

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

mockup