A travessia para a transformação psíquica
Não há travessia sem o risco do naufrágio, mas é justamente nesse risco que reside a possibilidade de viver uma vida mais satisfatória
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de outubro de 2024
Não há travessia sem o risco do naufrágio, mas é justamente nesse risco que reside a possibilidade de viver uma vida mais satisfatória
Sylvio do Amaral Schreiner 

Dizem que não se descobrem novas terras sem consentir em perder de vista a costa por algum tempo. Encontramos aí uma metáfora que se inscreve diretamente no campo da psicanálise: o percurso do sujeito em direção ao desconhecido, ao estrangeiro dentro de si. Esse movimento evoca a travessia necessária para a transformação psíquica, um caminho que não se faz sem riscos nem sem a renúncia ao que é familiar. Como na jornada analítica, é preciso deixar o porto seguro das certezas conhecidas para que algo novo possa surgir. No entanto, esse abandono da “costa” implica atravessar um território ambíguo, permeado pela angústia e pela possibilidade do naufrágio.
Freud, em sua obra, nos ensina que o desenvolvimento psíquico é, em grande parte, uma travessia através de perdas. Desde a ruptura da simbiose com a mãe até o luto pela infância e pelos ideais inatingíveis, o sujeito se constrói na medida em que é capaz de abrir mão daquilo que um dia foi indispensável. Mas a renúncia, por si só, não garante uma chegada segura a novas terras; ela é um ato que implica incerteza. Para perder de vista a costa, é preciso coragem, mas também uma disponibilidade interna para tolerar o vazio e a falta, como o psicanalista inglês Bion sugere com sua “fé” no processo, uma confiança em que algo significativo pode emergir mesmo quando não há garantias.
O mesmo se dá no setting analítico. O processo de análise convida o paciente a abandonar, ainda que temporariamente, suas narrativas habituais, seus padrões de pensamento rígidos e suas defesas mais familiares. Essa é uma travessia perigosa, porque as certezas que até então serviram de âncora — explicações que faziam sentido ou mecanismos de controle — precisam ser suspensas para que a mente possa se manifestar de forma autêntica. O analista, como um navegador experiente, não oferece mapas prontos, mas sustenta a travessia ao criar um espaço onde o paciente pode se perder e, eventualmente, encontrar-se.
A metáfora da viagem implica também um tempo de suspensão, um intervalo em que o sujeito não está mais no ponto de partida, mas tampouco alcançou seu destino. É um tempo de incerteza, de confusão, onde se pode experimentar o desamparo de não saber para onde ir. Essa é uma experiência psíquica comum nas transições importantes da vida: deixar um trabalho, encerrar um relacionamento, enfrentar o luto por alguém querido. É o momento em que o velho já não funciona, mas o novo ainda não se consolidou. Nesses momentos de vazio potencial, pode surgir uma criatividade renovada, mas apenas se o sujeito for capaz de sustentar a ansiedade de estar à deriva, sem ceder ao impulso de voltar para a costa imediatamente.
Descobrir novas terras, portanto, não é apenas uma questão de ousadia, mas de suportar a distância daquilo que um dia foi um porto seguro. Implica reconhecer que a segurança absoluta é uma ilusão e que o crescimento pessoal exige a capacidade de habitar o incerto. A costa, com suas rotinas e certezas, é necessária para que o sujeito tenha uma referência; no entanto, se ele se apegar a ela com demasiada força, a expansão psíquica se inviabiliza. Como na psicanálise, a vida é um movimento contínuo entre partida e retorno, uma sucessão de perdas e reencontros consigo mesmo.
A jornada rumo a novas terras é uma travessia em direção ao próprio desconhecido. Na medida em que aceitamos nos afastar das margens do que já conhecemos — nossas identidades fixas, nossas crenças consolidadas, nossos modos previsíveis de estar no mundo —, tornamo-nos capazes de descobrir novas dimensões de nós mesmos. Não há garantias de chegada nem promessas de paraísos encontrados; há apenas a possibilidade de transformação, sustentada pela disposição de perder-se e reinventar-se ao longo do caminho.
Assim, descobrir novas terras é uma metáfora para a própria condição de estar vivo: uma oscilação constante entre o conhecido e o desconhecido, entre o familiar e o estrangeiro, entre o porto seguro e o mar aberto. Não há travessia sem o risco do naufrágio, mas é justamente nesse risco que reside a possibilidade de viver uma vida mais satisfatória.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


