A tecnologia promete resolver quase tudo. Aplicativos sugerem o que comer, com quem sair, como dormir, o que fazer para ser mais produtivo, mais feliz. E agora, ela se insinua também no campo da saúde mental, oferecendo atendimentos terapêuticos por meio de sistemas de inteligência artificial. A proposta parece tentadora: disponível a qualquer momento, sem julgamentos, sem o risco de frustrações ou mal-entendidos humanos. Mas é justamente aí que reside o perigo: na ausência do outro real.

A psicanálise é, antes de tudo, um encontro. Um encontro entre dois sujeitos reais, falhos, singulares, vivos. Ao longo de uma análise, o paciente não se depara com respostas prontas nem com fórmulas genéricas. Ele se depara com suas próprias palavras, com seus silêncios, com seus afetos mais primitivos e com a presença de alguém que, ao escutá-lo verdadeiramente, o convoca a viver, e não a simular, um laço. Isso implica suportar a alteridade do analista, com suas presenças e ausências, suas intervenções e seus limites. Só há transformação possível quando há vínculo e transferência, e essa experiência não pode ser automatizada.

Uma inteligência artificial, por mais avançada que seja, não tem corpo, nem inconsciente, nem história própria. Ela não é afetada. Ela não se angustia com o que escuta, não se emociona com o que é dito, não hesita, não se transforma. E, portanto, não transforma. Em vez de oferecer um espaço de elaboração psíquica, o uso da IA como substituta do analista pode acabar promovendo uma espécie de simulação do processo analítico, uma paródia inofensiva e estéril de escuta, em que o sujeito fala para o vazio. Um vazio travestido de eficiência. E hoje em dia estamos cheios de vazios na vida.

Muitos podem buscar esse tipo de “atendimento” justamente para evitar o risco do encontro. O risco de se deparar com alguém que, por ser humano, também frustra, também se equivoca, também diz não. Mas é nesse atrito, nesse jogo entre a expectativa e a realidade, entre o desejo e a falta, que se constrói o caminho da análise. Fugir do outro é, muitas vezes, uma forma de tentar manter intacta uma fantasia narcísica de controle e perfeição, onde não há dor, mas também não há vida.

A análise é um percurso em direção ao reconhecimento do que há de mais íntimo e desconhecido em si mesmo. E isso só pode acontecer no campo da relação, onde o olhar do outro, o silêncio do outro, a presença do outro, tornam possível a construção de um espaço interno capaz de simbolizar, de pensar, de criar. Substituir o humano por um algoritmo é, nesse sentido, renunciar à possibilidade de se afetar e de se transformar. É contentar-se com uma versão higienizada e sem carne da experiência psíquica. É trocar o difícil, mas real, processo de amadurecimento, por um consolo tecnológico que nada exige e, portanto, nada devolve.

A psicanálise não promete respostas fáceis, mas oferece algo raro: um espaço onde o sujeito pode vir a ser quem é, através de um vínculo genuíno com um outro. É na imperfeição do humano que reside a possibilidade da escuta verdadeira. E é nela que mora a chance de, enfim, viver.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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