Muitas vezes, encontramos pessoas que se dizem insatisfeitas com o estado das coisas, que anseiam por um mundo melhor, por relações mais justas, por um ambiente mais saudável. Elas querem que algo mude – a sociedade, o outro, o parceiro, os filhos, o governo, os valores da época – mas não se dispõem a olhar para si mesmas e a considerar que a transformação que desejam talvez exija uma mudança interna. Querem a renovação do mundo, mas sem que nada dentro delas precise se mover.

Esse fenômeno, amplamente observado na clínica psicanalítica, revela uma defesa psíquica poderosa: a projeção. O mal-estar interno, a angústia e as dificuldades próprias são deslocados para fora, atribuídos ao outro, ao contexto, às circunstâncias. O mundo se torna um espelho onde se refletem as dores que não se quer reconhecer. Como num jogo de ilusão, tudo precisa ser modificado, desde que essa mudança não exija tocar a estrutura interna de quem reclama.

Freud já nos alertava para a resistência à transformação. O sintoma, mesmo que cause sofrimento, oferece uma forma de equilíbrio psíquico. Mudar implica abrir mão de certezas, encarar o desconhecido, lidar com os próprios vazios e fragilidades. Para muitos, esse confronto interno é mais assustador do que suportar o incômodo da realidade e por isso as coisas e muitas pessoas continuam como estão. É mais fácil acreditar que o problema está no outro, que são os outros que devem mudar. Assim, perpetua-se a ilusão de que, ao consertar o mundo, o próprio sofrimento será resolvido.

Mas a transformação genuína exige um deslocamento interno, um processo de renúncia e reconstrução. Sabemos, através do que a psicanálise e seus autores nos ensinam, que o amadurecimento psíquico envolve a capacidade de tolerar frustrações e sustentar a angústia de não controlar tudo. Implica sair da posição infantil de exigir do outro aquilo que se recusa a oferecer a si mesmo.

Na prática clínica, vemos que a verdadeira mudança só ocorre quando o sujeito aceita se implicar no que deseja transformar. Quando começa a perceber que sua maneira de ver, sentir e se relacionar com o mundo pode estar comprometendo sua experiência. Que, antes de querer modificar o outro, é preciso se perguntar: o que em mim resiste à mudança? Até mesmo na bíblia encontramos passagens que dizem “que antes de querer tirar o cisco do olho do outro, é preciso ver a trave que está no próprio olho”.

Enquanto esse movimento interno não acontece, a pessoa permanece aprisionada na fantasia de que a chave para sua paz está fora dela, no outro que precisa ser diferente, no mundo que precisa se ajustar às suas expectativas, mas o mundo não se curva aos nossos desejos. Ele só se modifica para aqueles que aceitam, primeiro, modificar-se a si mesmos.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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